Machim e a Praia de Machico
O barco chegou àquela baía sem ninguém o ter querido. Vinha de uma fuga que começara em Inglaterra, quando um fidalgo de nome Machim se apaixonou por uma rapariga de casa mais alta do que a sua, e a família dela resolveu o assunto da maneira habitual, casando-a à pressa com um nobre à altura do sangue. Ele não se conformou, combinou tudo com meia dúzia de amigos e levou-a de casa numa noite, com um navio à espera e a ideia de chegarem a França, onde ninguém os conhecia e ninguém os procuraria.
O mar teve outra opinião. Uma tempestade apanhou-os à saída e empurrou-os para sul durante dias sem que houvesse maneira de corrigir o rumo, e quando o vento amainou já ninguém a bordo sabia onde estava. Foi então que apareceu a terra, uma ilha montanhosa e coberta de floresta cerrada, sem sinal de gente, sem fumo, sem caminhos. Ancoraram numa baía calma, desembarcaram e ficaram parados a olhar para aquilo, que era bonito de mais para o estado em que iam.
Ela já vinha doente da viagem e do medo, e não aguentou. Morreu poucos dias depois de pôr o pé em terra, e Machim enterrou-a debaixo de uma árvore grande, ao fundo da baía. Levantou uma cruz de madeira sobre a sepultura e deixou lá escrita a história, com um pedido: que quem ali chegasse depois construísse naquele sítio uma capela. Não teve de esperar muito tempo pela sua vez. Morreu passados poucos dias, dizem que de desgosto puro, e os companheiros enterraram-no ao lado dela.
Os que sobraram meteram-se no batel e fizeram-se ao mar à procura de socorro, e o socorro que encontraram foi a costa de África e a escravidão. Passaram anos em cativeiro, e foi de cativo para cativo, de conversa em conversa, que a história da ilha e dos dois amantes enterrados debaixo de uma árvore foi passando de boca em boca até chegar à Península, onde ficou a circular entre gente do mar.
Muito tempo depois, quando as caravelas portuguesas se aproximaram daquela costa e mandaram um batel a terra, os homens encontraram na baía o que restava de uma cruz de madeira e uma inscrição já quase ilegível. Perceberam onde estavam e perceberam a quem pertencia aquela sepultura. Ao lugar chamaram Machico, pelo nome dele, e no fundo da baía acabou por se levantar uma capela, como tinha sido pedido por um homem que não teve tempo de a construir.
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