A Senhora da Nazaré e o Salto de D. Fuas Roupinho
A imagem era pequena, escura e muito antiga, e tinha chegado ao alto daquela falésia por caminhos que ninguém sabia explicar bem. Falava-se de um monge que fugiu com ela de terras longínquas, de uma gruta aberta na rocha onde ficou escondida durante séculos, de pescadores que subiam ao cimo para lhe pedir bom tempo antes de se fazerem ao mar. Quando a história que interessa começa, já ali estava a devoção, uma ermida minúscula e um caminho batido pelos pés de quem subia.
D. Fuas Roupinho era alcaide de Porto de Mós, homem de cavalo, de caça e de guerra, e daqueles que não gostam de perder uma peça depois de a levantar. Numa madrugada de nevoeiro tão cerrado que se perdia a mão à frente da cara, saiu a caçar por aqueles montes e levantou um veado, que fugiu na direção do mar. Fuas foi atrás dele com o cavalo lançado a toda a força, sem ver mais do que dois palmos para lá do focinho do animal, guiado apenas pelo barulho da corrida.
Quando percebeu onde estava, já era tarde. O veado tinha desaparecido dentro do branco como se nunca tivesse existido, e o que vinha a seguir não era chão: era a aresta da falésia e, por baixo, uma queda de mais de cem metros até às rochas e ao mar. Ainda teve tempo de gritar pela Senhora da Nazaré, cuja ermida sabia estar ali ao lado, escondida no nevoeiro.
O cavalo travou. Travou de tal maneira, com as patas dianteiras cravadas na pedra e o corpo a estremecer, que ficou suspenso mesmo na borda, com o cavaleiro em cima a olhar para o vazio. Ficaram os dois quietos como estátuas o tempo que foi preciso, até Fuas conseguir desmontar devagar e afastar-se dali de gatas, sem se atrever a olhar outra vez para baixo.
Mandou levantar naquele lugar exato uma capela pequena, encostada à beira do precipício, com a porta virada para o sítio onde tinha estado prestes a morrer. Continua lá, no cimo do Sítio, com azulejos por dentro e o mar a bater lá em baixo. As pessoas contam a história a quem chega com a naturalidade de quem fala de um vizinho, e apontam uma marca funda no rochedo que garantem ser do casco do cavalo. Quanto ao veado, nunca mais apareceu, e há quem sugira, com um sorriso do lado, que também nunca terá sido bem um veado.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.