A Padeira de Aljubarrota
Chamava-se Brites de Almeida e não era mulher para passar despercebida. Alta, larga de ombros, de mãos grandes e génio ainda maior, tinha fama de resolver à pancada o que os outros resolviam a falar, e de não levar desaforo para casa nem do padre. As histórias que se contavam dela antes da batalha já davam para uma noite inteira: que tinha andado por Castela a correr mundo, que tinha sido feita cativa por gente má, que se livrara dos que a prenderam pelos seus próprios meios e voltara a pé para a sua terra, onde abriu forno e se pôs a cozer pão para a vizinhança.
No dia da batalha, aquele canto do mundo estava cheio de gente armada. Os dois exércitos frente a frente, o rei de Castela com homens e cavalos de sobra e a certeza de quem já se vê sentado no trono, o Mestre de Avis e Nuno Álvares com muito menos de tudo, e o povo das aldeias em redor à espera de saber se ia mudar de rei antes do jantar. Brites ficou onde estava, com o forno aceso e a massa a levedar, porque o pão não espera por guerras e alguém tinha de o fazer.
A batalha foi curta e o fim dela foi feio. Os castelhanos desfizeram-se em fuga pelos campos fora, perseguidos por quem tinha contas antigas para acertar, e nesse fim de tarde foi péssimo negócio ser soldado perdido em terra alheia. Sete deles, ao passarem pela vila já sem armas nem ordem, viram uma casa com um forno grande de boca larga e meteram-se lá dentro a esconder, à espera que a noite os tirasse dali.
Brites chegou a casa e percebeu logo que tinha visitas, porque o pão estava fora do sítio e a porta encostada de maneira que ela não tinha deixado. Não gritou por socorro nem foi chamar os homens da vila. Pegou na pá do forno, aquela de cabo comprido com que se enfia e se tira o pão das brasas, encostou-se de lado à boca do forno e esperou com a paciência de quem espera que o pão coza. Foram saindo um a um, primeiro a cabeça, e um a um foram ficando.
Quando os vizinhos apareceram, já estava tudo resolvido e ela já tinha voltado ao trabalho, com o mesmo ar de quem varreu a casa. A pá ficou como símbolo e Brites ficou como a mulher que fez pelo reino, sozinha e com uma ferramenta de cozinha, aquilo que muitos homens de armas não fizeram nesse dia. Em Aljubarrota ainda se conta o número com rigor, sempre sete, nem seis nem oito, que estas coisas contam-se direito ou não vale a pena contá-las.
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