São Gonçalo e a Ponte de Amarante
Gonçalo voltou de terras longe, de romaria a Roma e a Jerusalém, com a barba pelo peito e a roupa em farrapos, e ninguém em casa o reconheceu. Contam que o sobrinho, a quem tinha deixado a igreja e as rendas enquanto andava fora, o pôs na rua à pancada, tomando-o por mendigo atrevido. Gonçalo não discutiu nem reclamou o que era seu. Pegou no bordão, andou por aquelas serras a pregar de aldeia em aldeia, e acabou por ficar em Amarante, numa cabana à beira do Tâmega.
O rio ali era uma desgraça anunciada. Não havia ponte, e quem tinha de passar passava a vau ou numa barca velha, ao sabor da corrente e do humor do barqueiro. Todos os invernos a água subia e levava alguém, ora um almocreve com a carga, ora uma mulher que ia à feira, e no ano seguinte repetia-se tudo outra vez com outro nome. Gonçalo decidiu que aquilo se resolvia com pedra e começou a pedir esmola de porta em porta para uma obra em que ninguém acreditava.
Quando o dinheiro faltou, faltou também a paciência. Contam que o frade se plantou diante de um penedo enorme, à beira de água, um daqueles que seriam precisos vinte homens e uma junta de bois para mover, e o chamou como quem chama um animal manso: «Anda daí, pedra, que és precisa aqui.» E a pedra andou, devagar, até ao lugar que lhe estava destinado no arco. Os homens da obra viram aquilo e a partir desse dia deixaram de perguntar se a ponte ficava pronta.
Houve ainda o dia do vinho. Estavam os trabalhadores parados com o calor a apertar, sem nada para beber, e o assunto ameaçava acabar em zanga. Gonçalo bateu com o bordão numa rocha e da rocha saiu vinho, que se bebeu ali mesmo pelas mãos em concha. Terminada a bebida, terminou-se o trabalho, e a ponte ficou de pé a servir a gente que dela precisava para atravessar sem se afogar.
Gonçalo morreu em Amarante e ali ficou sepultado, e com o tempo ganhou uma fama que não é a das pedras nem a do vinho. Ficou santo casamenteiro, aquele a quem as mulheres sem marido vão pedir remédio, e a devoção passou de mãe para filha durante séculos. Na romaria de junho a cidade enche-se, vendem-se os doces de forma inequívoca com que rapazes e raparigas se convidam sem terem de dizer nada, e reza-se a quadra que toda a gente sabe de cor, aquela em que se pede ao santo que se lembre primeiro das velhas, que são as que têm mais pressa. A ponte que hoje se atravessa já não é a dele, porque uma cheia deu cabo da primeira. A história ficou na mesma.
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