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Lenda

A Lenda dos Tripeiros

Quando se preparou a armada que havia de partir para Ceuta, o Porto recebeu um pedido que era quase uma ordem: mantimentos para muitos meses e para muita gente. Uma frota daquele tamanho não se alimenta de boa vontade nem de discursos. Precisa de carne salgada em barris, de biscoito, de vinho, de peixe seco, e precisa disso tudo pronto e a bordo antes de a maré virar. Nos estaleiros das margens do rio trabalhava-se de sol a sol a aprestar navios, e a cidade, que sempre gostou de estar no meio das coisas grandes, quis fazer a sua parte inteira.

Fizeram-se as contas e viu-se que não chegava. Havia gado, mas não havia gado a mais, e tudo o que fosse para os porões não voltava a entrar em casa de ninguém durante muito tempo. Podia dar-se metade e ficar bem na fotografia. Decidiu-se dar tudo. Abateram-se os animais, salgaram-se as peças boas, encheram-se os barris, e o que sobrou para a cidade foram as vísceras, aquilo que ninguém escolhe quando pode escolher.

As mulheres do Porto pegaram no resto e fizeram o que sempre se fez com o resto: aproveitaram. Lavaram as tripas com paciência, cozeram-nas devagar com feijão, com o que a horta desse e com os poucos enchidos que tinham escapado à salga, e puseram aquilo à mesa como se fosse prato de festa. Comeu-se dobrada durante meses, sem grande alternativa e sem grande queixa, enquanto a frota se fazia ao mar com a despensa cheia.

Foi daí que veio a alcunha, e veio para picar. Chamaram-lhes tripeiros os de fora, com o riso de quem via na tripa comida de pobre e na cidade um lugar de gente que trabalha demais e se diverte de menos. O Porto agarrou no insulto, virou-o do avesso e ficou com ele, que é a melhor maneira que há de desarmar um nome. Hoje chamar tripeiro a um portuense não ofende ninguém: é dizer-lhe que é da terra e que a terra tem esta história.

A dobrada à moda do Porto ficou nas casas de pasto e nas tascas, servida em travessa funda, e continua a ser pedida por gente que talvez já nem se lembre do porquê. A moral, essa, os portuenses repetem-na sem se cansarem: a generosidade não se mede pelo que sobra, mede-se pelo que se dá. Naquele dia a cidade deu tudo o que tinha e ficou a comer o que ninguém queria, e ainda hoje faz questão de o pôr na ementa.

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