Ditos

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Lenda

Pedro e Inês

Foi em Coimbra que tudo se estragou, mas tinha começado num casamento arranjado como se arranjavam os casamentos dos infantes, com mapas em cima da mesa e sentimentos nenhuns. D. Pedro casou com Constança, filha de um poderoso senhor castelhano, e no séquito da noiva vinha uma dama de companhia chamada Inês de Castro, também ela de Castela e de uma família com demasiados interesses do outro lado da fronteira. O infante viu-a e a partir daí o casamento passou a ser um papel assinado. A corte percebeu tudo antes de alguém dizer fosse o que fosse, porque estas coisas percebem-se sempre.

O rei D. Afonso IV tentou resolver o problema com distância e mandou Inês para longe do reino. Pouco depois Constança morreu de parto, e o que devia ter acabado ali continuou com mais força: Pedro trouxe Inês de volta, instalou-a em Coimbra, ao pé do mosteiro de Santa Clara, e tiveram filhos. À volta do rei, os conselheiros faziam contas em voz baixa. Filhos com sangue castelhano, meios-irmãos de um herdeiro que era rapaz frágil, e uma família Castro cada vez mais encostada ao trono. Aquilo, diziam eles, ia acabar com Portugal a ser governado de Castela.

Falaram tanto e tão bem que o velho rei cedeu. Aproveitou uma ausência do filho, foi a Coimbra e mandou chamar Inês, que se lhe atirou aos pés com as crianças agarradas à saia. Diz-se que Afonso IV hesitou, que se compadeceu daquilo e que saiu dali sem ter dado ordem nenhuma. Os três homens que o acompanhavam não hesitaram um segundo. Voltaram atrás e mataram-na.

Pedro enlouqueceu de raiva e pegou em armas contra o próprio pai, e por uns meses o reino esteve em guerra consigo mesmo. Fizeram as pazes porque era preciso fazer, mas a conta ficou aberta. Quando o rei morreu e Pedro subiu ao trono, dois dos assassinos, que se tinham refugiado em Castela, foram entregues numa troca de exilados combinada entre os dois reis. O novo rei mandou executá-los à sua frente, com uma crueldade que as crónicas contam depressa e sem gosto. O terceiro fugiu a tempo e teve a sorte de morrer velho e na cama.

Depois veio a parte que fez a lenda. Pedro declarou que tinha casado com Inês em segredo, anos antes, diante de testemunhas, e que ela era portanto rainha de Portugal. Contam que mandou desenterrar o corpo, que o sentou no trono vestido de púrpura, com a coroa na cabeça, e que obrigou a corte inteira a desfilar e a beijar a mão daquilo que restava. Depois levou-a para Alcobaça num cortejo de tochas que atravessou o país ao passo lento de quem não tem pressa nenhuma de chegar. Mandou lavrar dois túmulos de pedra e colocou-os frente a frente, para que no dia do juízo final, quando os mortos se levantarem, a primeira coisa que cada um veja seja o outro.

Em Coimbra ficou a fonte onde a tradição diz que ela foi degolada, e as algas vermelhas que crescem no fundo ganharam fama de ser sangue que não sai. A quinta chama-se das Lágrimas por causa disso, e há setecentos anos que quem lá vai baixa a voz sem saber muito bem porquê.

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