O Milagre das Rosas
A rainha tinha um hábito que dava dores de cabeça a quem guardava as chaves do cofre: saía do paço com o regaço cheio e voltava com ele vazio. Isabel, mulher de D. Dinis, dava aos pobres à porta, dava aos leprosos que ninguém queria tocar, dava aos presos, dava dote a raparigas que sem ele não casavam e dava a quem lhe aparecesse à frente com uma história triste e mãos abertas. Fazia-o quase todos os dias, à mesma hora, e fazia-o com dinheiro que era do rei e do reino.
D. Dinis não era homem mau nem avarento, era homem de contas. Achava muito bem a caridade em geral e achava-a excessiva dentro de sua casa, e mais de uma vez avisou a mulher de que aquele dinheiro tinha outros destinos, obras, guerras, fronteiras, coisas que não se pagam com boas intenções. Ela ouvia com paciência, concordava sem discutir e no dia seguinte voltava a descer as escadas com a saia cheia.
Numa manhã de janeiro, o rei apanhou-a a meio da escada. Vinha ela a descer depressa, com a saia levantada e apertada contra o corpo, a caminho da porta de serviço, e deu com ele à frente sem tempo de dar a volta nem de inventar caminho. «Que levais aí?», perguntou o rei, e a pergunta ficou pendurada no ar frio como coisa que já vinha preparada há muito tempo. Houve um silêncio do tamanho da cidade inteira. «Rosas, senhor», respondeu ela.
Era janeiro em Coimbra. Não havia rosas em janeiro em Coimbra nem em canto nenhum do reino, e os dois sabiam-no tão bem um como o outro. O rei mandou-a abrir o regaço, e não o mandou por maldade: mandou-o porque já não sabia como havia de acabar aquela conversa. Isabel abriu os braços e caíram rosas pelos degraus abaixo, vermelhas e brancas, aos molhos, com um cheiro de maio dentro do frio de janeiro. Contam que o rei não disse mais nada e que a partir daquele dia deixou de fazer perguntas.
A rainha teve outras histórias, e nem todas precisaram de milagre para serem notáveis. Foi ela quem se meteu a cavalo entre os exércitos do marido e do filho, quando os dois se preparavam para se matarem em campo aberto, e conseguiu que ambos recuassem sem que corresse sangue. Morreu longe de Coimbra, numa viagem que fez já doente e já velha para separar outra guerra de família, e foi trazida para o mosteiro que tinha mandado erguer. Em Coimbra continua a ser tratada por Rainha Santa, e nas imagens dela as rosas continuam ali, no regaço aberto, como prova de uma mentira que valeu bem a pena.
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