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Lenda

Os Corvos de São Vicente

Muito antes de haver Portugal, chegou àquele cabo um corpo vindo do mar. Era o de Vicente, diácono martirizado do outro lado da Península em tempo de perseguições, cujos restos os cristãos tinham posto numa embarcação para os salvar de quem os queria destruir. O barco andou à deriva o tempo que teve de andar e veio encalhar na ponta mais a sudoeste da terra, onde o vento não pára nunca e a falésia cai a direito para uma água que raramente está mansa.

A história podia acabar ali, num naufrágio anónimo entre muitos, se não fosse o pormenor que lhe deu nome. Junto ao corpo ficaram dois corvos, e ficaram mesmo, dia e noite, sem se afastarem. Enxotavam os animais que se aproximavam, defendiam o lugar de tudo o que viesse, e não havia maneira de os fazer sair dali. Quem passava reparava logo naquilo, porque um corvo pousado é coisa vulgar e dois corvos de guarda a um morto durante meses não é.

Os cristãos da região levantaram no promontório um lugar de culto e ficaram a tomar conta do túmulo. Passaram os séculos e passaram os donos da terra, e o sítio manteve-se de pé com os seus guardiões e com a fama que tinha ganho, respeitado por quem lá mandava, mesmo quando quem mandava rezava de outra maneira. O cabo passou a ser conhecido pelo nome do santo, e as aves entraram na conversa como parte da paisagem, com uma naturalidade que hoje custa a imaginar.

Quando Lisboa já era portuguesa e o reino começava a ganhar corpo, D. Afonso Henriques mandou uma embarcação buscar os restos ao cabo, para os trazer para a sua capital. O que se conta da viagem é a parte de que ninguém se esquece: os dois corvos vieram com o barco, um empoleirado à proa e outro à popa, imóveis, todo o caminho pela costa acima e depois rio adentro, sem que ninguém precisasse de lhes explicar para onde iam.

Em Lisboa esperava gente nas margens, e o corpo foi levado para a catedral com festa. Os corvos, esses, ficaram para sempre nas armas da cidade, um de cada lado da barca, e é ali que continuam, em bandeiras, em chafarizes, nas tampas de saneamento por onde se pisa sem olhar. Poucos símbolos municipais no mundo terão uma explicação tão simples: são as duas aves que não deixaram ninguém tocar no morto.

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