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Lenda

A Lenda das Amendoeiras em Flor

O rei que mandava naquela cidade tinha tudo o que um senhor do sul podia querer. Tinha os pomares, tinha os poetas, tinha a água a correr nos pátios e a cidade mais importante daquele canto do mundo, com o rio a servir de estrada até ao mar. Faltava-lhe uma coisa só, e essa apareceu-lhe um dia sob a forma de uma rapariga vinda de muito longe, do norte gelado, com a pele clara e os olhos de uma cor que ali ninguém tinha. Casaram-se, e durante uns tempos foi tudo como nas histórias.

Depois ela começou a apagar-se. Comia pouco, falava menos, passava as tardes sentada a olhar para o horizonte do lado de onde tinha vindo, e nem os pátios, nem a música, nem as sedas lhe arrancavam mais do que um sorriso de cortesia. Chamaram-se médicos de todo o reino, que lhe mediram o pulso, lhe deram beberagens e discutiram entre si diagnósticos compridos, e nenhum acertou em nada. O rei, que era homem de resolver problemas, viu-se pela primeira vez sem saber por onde pegar.

Quem lhe explicou foi uma velha ama que tinha vindo com ela da terra dela e que já não tinha idade para ter medo de reis. Disse-lhe que a rapariga não estava doente, estava com saudade, e que a saudade dela tinha uma forma muito concreta: era a neve. Era ver o mundo todo branco de um dia para o outro, os campos, os telhados, os caminhos, tudo coberto e calado, como acontecia na terra dela todos os invernos. Naquele sul de sol e de pó, nunca mais tinha visto tal coisa nem voltaria a ver.

O rei mandou plantar amendoeiras. Não uma ou duas: mandou encher a planície toda à volta da cidade, encosta acima e encosta abaixo, até onde a vista chegava, com milhares delas plantadas ao mesmo tempo por toda a gente que houvesse para plantar. Depois esperou pelo inverno, que naquele ano deve ter parecido eterno, e uma manhã de janeiro acordou-a antes do sol e levou-a até ao terraço mais alto, sem lhe dizer porquê.

O que ela viu foi neve. Branco até ao fim do mundo, as copas todas cobertas ao mesmo tempo, e um cheiro doce que a neve verdadeira não tem mas que ninguém ali estava em condições de reparar. Contam que riu como não ria desde que tinha chegado, e que a partir daquele dia ficou boa. E todos os anos, por janeiro e fevereiro, o Algarve volta a fazer a mesma coisa sem que ninguém tenha de lho pedir, para quem quiser ir ver.

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