A Moura Salúquia
Salúquia era filha do senhor daquele castelo e estava prestes a casar. O noivo, Bráfama, mandava numa fortaleza das redondezas e vinha buscá-la com o aparato que a ocasião pedia: cavalos enfeitados, tambores, presentes embrulhados em pano bom e um séquito de gente vestida a rigor para um dia que se queria lembrar durante anos. Estava tudo combinado ao pormenor, incluindo a hora a que havia de aparecer no cimo do caminho.
O pai tinha saído dias antes com quase todos os homens de armas, porque a guerra não pergunta pelas datas dos casamentos. Ficaram no castelo os criados, as mulheres, os velhos e uma guarda pequena, a suficiente para abrir a porta a quem chegasse com boas notícias. Salúquia passou a manhã à janela da torre, com o vestido já posto, a olhar para o caminho por onde ele havia de aparecer, e as criadas passaram-na a dizer-lhe que se sentasse.
O que ela não sabia é que havia dias que aquele castelo estava a ser observado das colinas por um grupo de cavaleiros cristãos, que tinham contado os homens que saíram e percebido o que restava lá dentro. Souberam do casamento, souberam da hora, e esperaram o cortejo numa garganta apertada do caminho, onde não havia para onde fugir. Foi rápido e não sobrou ninguém. Depois despiram os mortos, vestiram as roupas de festa, montaram os cavalos enfeitados e seguiram viagem com os tambores e tudo.
Ao fim da tarde apareceu, ao longe, o cortejo que ela esperava. Vinham as mesmas cores, os mesmos cavalos, os mesmos estandartes a baloiçar, e a música ouvia-se antes de se distinguirem as caras. Salúquia mandou abrir as portas de par em par e desceu as escadas a correr, com o coração aos saltos, para receber o noivo à entrada do pátio.
Percebeu tudo tarde de mais, quando já estavam dentro e as espadas apareceram por baixo das roupas emprestadas. Voltou a subir a torre com os gritos a encherem o castelo por baixo dela, chegou ao alto, olhou uma vez para o caminho vazio e atirou-se. Os que ficaram donos da terra deram-lhe o nome da rapariga que ali morreu, e a vila chama-se Moura desde então, com a torre de pé e a história a ser contada a quem chega, sempre com a mesma pergunta no fim: quantos casamentos terão sido desfeitos assim, sem nenhum ficar com nome de terra.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.