Ditos

As palavras para cada ocasião.

Lenda

A Lenda de Ourique

Na noite antes da batalha, Afonso Henriques não conseguiu dormir e não era por falta de cansaço. Do lado de lá, no escuro, viam-se fogueiras a mais para o gosto de qualquer comandante, e por muitas contas que se fizessem nunca davam um resultado animador. Do lado de cá havia homens bons, havia cavalos, havia fé, e havia sobretudo a consciência de que uma derrota ali não era uma derrota: era o fim daquilo tudo, do condado, do projeto, do nome que ele andava a tentar construir contra a vontade de meio mundo.

Dias antes, um velho eremita que vivia por aqueles montes tinha-lhe dito uma coisa estranha e concreta: que quando ouvisse um sino tocar sozinho, no meio da noite, saísse da tenda e fosse ver. Naquela noite o sino tocou. Afonso saiu sem acordar ninguém, andou uns passos para fora do acampamento e ficou a olhar para nascente, onde o céu se tinha aberto num clarão. No meio do clarão viu a cruz, e na cruz viu Cristo.

O que se disseram os dois conta-se em poucas palavras. Foi-lhe prometida a vitória do dia seguinte e foram-lhe prometidas outras, muitas, para além da vida dele, e foi-lhe dito que dali sairia um reino e um povo escolhido para andar pelo mundo a levar aquele nome. Afonso ajoelhou-se e pediu apenas uma coisa: que o sinal fosse dado também aos seus homens, porque ele acreditava, mas um exército não se governa com a fé de um só. Ficou ali até de madrugada.

Contou tudo ao amanhecer, diante da tropa formada, e sabe-se lá quantos acreditaram. Sabe-se que combateram todos. A batalha correu de maneira que ninguém esperava: os cinco chefes mouros que vinham à frente do exército inimigo caíram ou fugiram, a linha desfez-se, e ao fim do dia o campo estava do lado errado das previsões. A vitória foi de tal tamanho que ainda hoje se discute quantos homens estariam realmente de cada lado, porque os números que a tradição dá não cabem naquele terreno.

Foi no próprio campo, com o sangue ainda por secar, que os seus o levantaram e o aclamaram rei, segundo a tradição. E foi dessa noite e desse dia que ficaram, diz-se, as armas de Portugal: cinco escudos pelos cinco chefes vencidos, e em cada escudo as moedas com que Cristo foi vendido, para que ninguém se esquecesse do que tinha visto quem estava a olhar para o céu enquanto os outros dormiam.

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