As Lagoas das Sete Cidades
A princesa tinha licença para sair do palácio uma vez por dia, sempre acompanhada e sempre pelo mesmo caminho, que é a maneira educada de dizer que não tinha licença nenhuma. Era filha única de um rei viúvo que a guardava como quem guarda a última coisa que lhe resta, e tinha os olhos de um verde que se via de longe. Numa dessas voltas, ao passar junto às pastagens que ficavam para lá dos muros, ouviu alguém a cantar e parou. Era um rapaz que guardava gado, com os olhos de um azul tão certo como o verde dela.
Combinaram encontrar-se no dia seguinte, e no outro, e assim ficou. Ela dava a volta ao muro à hora de sempre e ele estava lá, e falavam do que falam duas pessoas que não têm nada em comum a não ser a vontade de se verem outra vez. Falaram de casamento como quem fala de coisa possível, porque nessa idade tudo parece possível, e durante uns meses foram provavelmente as duas pessoas mais felizes da ilha.
O rei soube, como sempre se sabe. Não perdeu tempo com conversas: recordou à filha que estava prometida a um príncipe de uma casa distante, coisa combinada havia anos entre gente que nunca lhe tinha perguntado nada, e proibiu-a de voltar a sair. Ela chorou, pediu, ajoelhou-se, e conseguiu uma única coisa, a última: licença para se despedir dele, uma vez, e nunca mais.
Encontraram-se no fundo daquele vale enorme, com as encostas à volta como paredes de uma sala. Não houve grandes discursos, houve o que costuma haver, que é ficar calado a olhar e não conseguir dizer adeus. E choraram. Choraram tanto e tanto tempo que as lágrimas foram enchendo o fundo do vale, primeiro os pés, depois o resto, até ficarem duas lagoas grandes lado a lado, uma verde como os olhos dela e outra azul como os dele.
As duas ficaram ali, encostadas uma à outra, ligadas por um canal estreito sobre o qual passa hoje uma estrada, sem que nenhuma perca a sua cor para a outra. Quem sobe ao miradouro e as vê pela primeira vez, com a cratera toda à volta e o nevoeiro a entrar e a sair sem pedir licença, entende porque é que ninguém naquela ilha teve vontade de arranjar outra explicação.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.