Mário de Sá-Carneiro
1890 a 1916 · obra em domínio público desde 1987

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) foi o outro grande nome do Orpheu, a revista de 1915 que escandalizou Lisboa e abriu a literatura portuguesa ao século XX. Amigo íntimo de Fernando Pessoa, com quem se carteou até ao fim, escreveu a novela A Confissão de Lúcio e os poemas de Dispersão, onde o eu se vê falhar-se a si próprio como ninguém tinha escrito em português. Viveu entre Lisboa e Paris, sustentado por um pai cada vez mais arruinado, e matou-se num quarto de hotel parisiense aos 25 anos, depois de anunciar a data por carta a Pessoa. «Eu não sou eu nem sou o outro, / sou qualquer coisa de intermédio»: em dois versos deixou o retrato que a crítica ainda usa. As cartas a Pessoa, escritas quase diariamente de Paris, são metade da sua obra e o diário de uma amizade única na literatura portuguesa. Tinha 25 anos quando se matou; a Dispersão, que aqui está, nem três anos tinha. Poucos livros tão pequenos pesaram tanto.
Poemas
Frases
Cada uma diz de que obra saiu e em que capítulo.
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Quero reunir-me e todo me dissipo - Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...
É só de mim que ando delirante- Manhã tão forte que me anoiteceu.
Perdi-me dentro de mim Porque eu era labirinto, E hoje, quanto me sinto, É com saüdades de mim.
Passei pela minha vida Um astro doido a sonhar. Na ânsia de ultrapassar, Nem dei pela minha vida...
(As minhas grandes saüdades São do que nunca enlacei. Ai, como eu tenho saüdades Dos sonhos que não sonhei!...
Unicamente à força de sonhar…
— Onde existo que não existo em mim?
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo…
O que devemos é saltar na bruma, Correr no azul à busca da beleza.
Vêm-me saüdades de ter sido Deus...
A tristeza de nunca sermos dois...
A vida corre sobre mim em guerra, E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus, Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus, Estátua falsa ainda erguida no ar...
Numa incerta melodia Toda a minh'alma se esconde
Que pesadelo tão bom...
Vivo em roxo e morro em som...
-Ai que saüdades da morte...
Quero dormir...ancorar...
Arranquem-me esta grandeza!
Obras usadas
- Dispersão (1914)
Dispersão: 12 poesias, de Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 1914). Texto da transcrição do Project Gutenberg (ebook 21799), com a grafia e a pontuação dessa transcrição. - Dispersão
Poema avulso, transcrito da Wikisource e publicado em /poemas/mario-de-sa-carneiro/dispersao-poema/ - Estátua Falsa
Poema avulso, transcrito da Wikisource e publicado em /poemas/mario-de-sa-carneiro/estatua-falsa/ - Escavação
Poema avulso, transcrito da Wikisource e publicado em /poemas/mario-de-sa-carneiro/escavacao/ - Alcool
Poema avulso, transcrito da Wikisource e publicado em /poemas/mario-de-sa-carneiro/alcool/ - Inter-Sonho
Poema avulso, transcrito da Wikisource e publicado em /poemas/mario-de-sa-carneiro/inter-sonho/ - Vontade de dormir
Poema avulso, transcrito da Wikisource e publicado em /poemas/mario-de-sa-carneiro/vontade-de-dormir/ - Partida
Poema avulso, transcrito da Wikisource e publicado em /poemas/mario-de-sa-carneiro/partida/
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