«Quem canta, seus males espanta»
A frase aparece no Dom Quixote, mas o próprio livro a trata como ditado velho. Cervantes não a criou: registou-a.
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A frase circula em português como «Quem canta, seus males espanta», e quando lhe procuram dono aparece quase sempre Miguel de Cervantes, com direito a obra e tudo: estaria no Dom Quixote.
Está lá, de facto. No capítulo XXII da primeira parte, publicada em 1605, a caminho da cena dos galeotes, a frase surge em castelhano, «quien canta sus males espanta». Só que o texto não a apresenta como achado do autor: apresenta-a como ditado que as personagens conhecem e comentam, uma daquelas verdades de toda a gente que o Quixote está sempre a pôr na boca de quem fala. Cervantes foi um colecionador imenso de provérbios, e Sancho Pança é o maior saco deles que a literatura já teve.
A distinção interessa porque é a diferença entre criar e registar. O provérbio já corria na Península antes do romance, como tantos que o livro apanhou do ar e devolveu com fama. O que o Quixote fez foi dar-lhe a melhor certidão de idade que um ditado pode ter: uma data impressa, 1605, num dos livros mais lidos do mundo.
Em português a frase vive há séculos por conta própria, com a rima acertada e sem precisar de padrinho. Citar Cervantes não é errado; é dar a um provérbio do povo o nome do seu notário.
Origem apontada: provérbio ibérico anterior, registado no Quixote.