«Paris bem vale uma missa»
O rei protestante que se fez católico para reinar teria resumido o negócio numa frase. Os registos da época não a conhecem.
Atribuição disputadaAtribuição disputada
A frase circula como «Paris bem vale uma missa» e é atribuída a Henrique IV de França: protestante, herdeiro do trono de um país católico em guerra religiosa, converteu-se em 1593 para poder ser rei a sério. A frase seria o seu encolher de ombros diante da própria conversão, o cinismo político em estado puro.
A conversão é história documentada; a frase, não. Nenhum registo contemporâneo a recolhe da boca do rei. Ela aparece em escritos posteriores, e numa das versões mais antigas nem sequer é dele: seria de um companheiro, talvez o futuro ministro Sully, a picar o rei, com Henrique a responder ou a sorrir conforme o contador. Só com o tempo a réplica mudou de dono e se fixou no monarca, porque as frases boas sobem sempre na hierarquia.
A suspeita agrava-se pelo uso: a frase serviu durante séculos a quem queria pintar Henrique como oportunista, e serviu tão bem que se tornou difícil separar o retrato da propaganda. Um rei que fez a paz religiosa com o Édito de Nantes ficou reduzido, na memória popular, a um balcão de câmbio entre a fé e a coroa.
Como tantas frases de rei, esta diz menos sobre quem a teria dito e mais sobre quem precisou de a contar. Paris valeu de facto a missa; a frase é que talvez não valha a atribuição.
Origem apontada: atribuição posterior, sem registo contemporâneo.