«É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma»
Citada como sabedoria política sem dono, a frase tem autor, livro e personagem: Tancredi, no Leopardo de Lampedusa.
Atribuição disputadaFonte secundária
A frase circula em várias roupas, «é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma», «mudar tudo para que nada mude», e é citada como máxima política avulsa, ora dada a um estadista qualquer, ora apresentada como provérbio siciliano sem dono.
Dono tem, e bem identificado. A frase é do romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, publicado em 1958, e pertence a uma personagem: Tancredi, o sobrinho do príncipe, que a diz ao tio para justificar juntar-se aos revolucionários de Garibaldi. O raciocínio dele é o de uma aristocracia com faro: se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude. Aderir à revolução era a maneira de a domesticar.
O romance saiu póstumo, Lampedusa morrera no ano anterior, e a frase saltou depressa do livro para a análise política, onde ganhou até nome de família: o gatopardismo, a arte de mudar as fachadas para conservar o resto. Poucas falas de ficção deram origem a um conceito com entrada nos dicionários políticos.
Convém, por isso, devolver a citação a quem a disse: não é sabedoria anónima nem conselho de estadista, é a fala calculista de uma personagem, escrita por um aristocrata siciliano a olhar para o fim do seu mundo. Usá-la a sério, sem ironia, é dar razão ao Tancredi, o que talvez seja o teste mais fino da frase.
Origem confirmada: Giuseppe Tomasi di Lampedusa, no romance O Leopardo (1958).