«Deus escreve direito por linhas tortas»
Não está na Bíblia, não é de Camões nem de Vieira. É um provérbio português sem dono, e foi um dramaturgo francês que o disse ao mundo.
Atribuição disputadaAtribuição disputada
A frase circula como «Deus escreve direito por linhas tortas» e vai buscando donos conforme a conversa: uns juram que é da Bíblia, outros dão-na a Camões, outros ao padre António Vieira, que tem costas largas para tudo o que soe a púlpito.
Na Bíblia não está, nem em versículo nem em paráfrase próxima; quem a procura nas concordâncias volta de mãos vazias. Na obra de Camões e nos sermões de Vieira também não aparece, e as atribuições a ambos andam sempre sem livro, capítulo ou página, que é o sinal do costume.
O que os registos mostram é outra coisa, mais bonita: trata-se de um provérbio português antigo, de autor desconhecido, recolhido como tal nos adagiários. E a sua certidão internacional foi passada por um estrangeiro: Paul Claudel, dramaturgo francês, abriu a sua peça Le Soulier de satin, em 1929, com a frase em epígrafe e a indicação expressa de que se tratava de um provérbio português. O mundo leu-a assim, com a nacionalidade escrita ao lado e o autor em branco.
É um caso raro de frase cujo dono é uma língua inteira. Quem a citar pode dispensar o nome: basta dizer, como Claudel disse, que é dos portugueses.
Origem apontada: provérbio português, sem autor conhecido.