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Poema

Amor é um fogo que arde sem se ver

Luís Vaz de Camões · Amor he hum fogo que arde sem se ver, p. 115

Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É um não contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; É um estar-se preso por vontade; É servir a quem vence o vencedor; É um ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode o seu favor Nos mortais corações conformidade, Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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É o soneto das definições: catorze versos a responder à pergunta «o que é o amor?» sem nunca a fazer. Como toda a lírica de Camões, só chegou ao prelo depois da morte do poeta, nas Rimas de 1595, e pertence a uma tradição que vinha de Petrarca, a de definir o amor por contrários; Camões pegou-lhe no molde e levou-o ao limite.

Os quartetos são uma máquina de paradoxos. Cada verso junta uma coisa e o seu desmentido: «fogo que arde sem se ver», «ferida que dói e não se sente», «contentamento descontente», «dor que desatina sem doer». O segundo quarteto desloca o jogo do sentir para o querer: «É um não querer mais que bem querer», «É solitário andar por entre a gente», «É cuidar que se ganha em se perder», e o amor vai ficando definido como um estado em guerra consigo próprio.

Os tercetos trocam a definição pela vassalagem voluntária, com vocabulário de guerra e de corte: «É um estar-se preso por vontade; / É servir a quem vence o vencedor; / É um ter com quem nos mata lealdade.» Quem ama escolhe a prisão, serve quem o venceu e guarda fé a quem o mata: três imagens do amor cortês levadas à letra.

O fecho é uma volta lógica, não uma conclusão: «Mas como causar pode o seu favor / Nos mortais corações conformidade, / Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?» Se o amor é contradição pura, como pode pôr de acordo um coração? O soneto acaba a perguntar, e é por isso que não envelhece: quatro séculos depois, a pergunta continua por responder.

O soneto circula com pequenas variantes de lição entre as edições antigas; o texto desta página segue a fonte ligada, com a grafia atualizada pela norma do arquivo e o original à vista no botão junto ao poema. Os outros sonetos de Camões, e a Écloga V inteira, estão na página do autor.

Revisão editorial de Rogério Junior · atualizada a 6 de outubro de 2026.

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