A quem darei queixumes namorados
Luís Vaz de Camões · Obras Completas, vol. II (1843), pp. 201-211
Fala um só pastor.
A quem darei queixumes namorados
Do meu pastor queixoso e namorado?
A branda voz, suspiros magoados,
A causa porque n'alma é magoado?
De quem serão seus males consolados?
Quem lhe fará devido gasalhado?
Só vós, Senhor famoso e excelente,
Especial em graças entr'a gente.
Por partes mil lançando a fantasia,
Busquei na terra estrela, que guiasse
Meu rudo verso; em cuja companhia
A santa piedade sempre andasse
Luzente e clara, como a luz do dia,
Que o rudo engenho meu m'alumiasse;
E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo
Ainda além cumprido o meu desejo.
A vós se deem, a quem junto se há dado
Brandura, mansidão, engenho e arte,
D'um esprito divino acompanhado,
Dos sobre-humanos um em toda parte:
Em vós as graças todas se hão juntado;
De vós em outras partes se reparte.
Sois claro raio, sois ardente chama;
Glória e louvor do tempo, asas da fama.
Enquanto eu aparelho um novo esprito,
E voz de cisne tal, que o mundo espante,
Com que de vós, Senhor, em alto grito
Louvores mil em toda parte cante;
Ouvi o canto agreste em tronco escrito,
Entre vacas e gado petulante:
Que quando tempo for, em melhor modo
Há de m'ouvir por vós o mundo todo.
As vãs querelas, brandas e amorosas,
Sejam de vós tratadas brandamente;
Verdades d'alma pouco venturosas,
Saídas com suspiro vivo e ardente:
Em vossas mãos s'entregam valorosas,
Porqu'ao futuro vivam entr'a gente,
Chorando sempre a antiga crueldade,
Para mover as almas a piedade.
Já declinava o sol contra o Oriente,
E o mais do dia já era passado,
Quando o pastor co'o grave mal que sente,
Por dar alívio em parte a seu cuidado,
Se queixa da pastora docemente,
Cuidando de ninguém ser escutado.
Eu que o escutei, numa árvore escrevia
As mágoas que cantou; e assim dizia:
Ou tu do monte Pindaso és nascida,
Ou mármor te pariu formosa e dura:
Não pode ser que fosse concebida
Dureza tal de humana criatura:
Ou quiçá qu'és em pedra convertida,
Ou tens da natureza tal ventura;
Porém não fez em ti boa impressão,
Só de mármor tornar-te o coração.
Já, já com minha voz rouca e chorosa
A gente mais austera moveria;
E com esta corrente lagrimosa
Os tigres em Hircânia amansaria.
Se não fosses cruel, quanto formosa,
Meu longo suspirar t'abrandaria:
Mas suspirar por ti, mas bem querer-te,
Que fazem senão mais endurecer-te?
Se deixaras vencer a crueldade
De tua tão perfeita formosura;
Um pouco viras bem minha vontade,
E viras a fé minha, limpa e pura,
Por ventura, que houveras já piedade,
E tivera eu quiçá melhor ventura:
Mas nunca achou igual tua beleza,
Se não se foi em ti tua dureza.
Já um peito abrandara, que não sente,
Este meu grave mal, segundo é forte;
Se descera do inferno ao Polo ardente,
A piedade movera a própria morte.
Pois se uma gota d'água brandamente
Torna brando um penedo, duro e forte,
Tantas lágrimas minhas não farão
Um pequeno sinal num coração?
Na testa fonte viva tenho d'água,
Que por meus olhos tristes se derrama;
E no peito de fogo viva frágua,
Que tudo em si converte, tudo inflama:
Amor em derredor, por maior mágoa,
Voando mais acende a ardente chama.
Se queres ver se ardentes são seus tiros,
Olha se são ardentes meus suspiros.
Quando grita e rumor grande se sente,
Porque fogo se ateia em casa, ou torre,
De pura compaixão vai toda a gente,
Água ao fogo gritando; e cada um corre.
Dest'arte anda o meu peito em chama ardente,
E com a água dos olhos se socorre;
Que quem me abrasa, outra água me defende,
Porque com esta o fogo mais se acende.
Quando vemos que sai lá no Oriente
O sol, seu curso antigo começando,
Formoso, intenso, puro, refulgente,
O monte, o campo, o mar, tudo alegrando;
Quando de nós s'esconde no Poente,
E em outras terras sai, alumiando,
Sempre, enquanto vai dando ao mundo giro,
Choram por ti meus olhos, e eu suspiro.
Caminha o dia todo o caminhante,
E, enfim, lhe chega a noite, em que descansa;
Trabalha na tormenta o navegante,
Traz-lhe a clara manhã feliz bonança;
Recobra o fruto fértil e abundante
Da terra o lavrador, se nela cansa:
Mas eu de meu cuidado e mal tão forte
Tormento espero só, só crua morte.
D'ouvir meu dano as rosas matutinas,
Condoídas se cerram, s'emurchecem;
Com meu suspiro ardente as cores finas
Perdem o cravo, o lírio, e não florescem.
Co'a roxa aurora as pálidas boninas,
Em vez de se alegrarem, s'entristecem:
Deixam seu canto Progne e Filomena;
Que mais lhes dói, que a sua, a minha pena.
Responde o monte côncavo a meus ais,
E tu como áspid, cerras-lhe o ouvido;
Os indómitos feros animais,
Sem humano sentir, mostram sentido:
Mas em ti minhas dores desiguais
Nunca movem o peito endurecido:
Por muito que te chame, não respondes;
E quanto mais te busco, mais t'escondes.
Naquela parte donde costumavas
Apascentar meus olhos e teu gado;
Ali donde mil vezes me mostravas,
Qu'era o pastor de ti mais desejado,
Vezes mil te busquei, por ver se davas
Algum breve descanso a meu cuidado.
Busco-te em vão no vale, em vão no monte,
Qual o ferido cervo busca a fonte.
Este lugar de ti desamparado,
Com cujas sombras frias já folgaste,
Agora triste, escuro é já tornado;
Que todo o bem contigo nos levaste.
Eras tu nosso sol mais desejado;
Não temos luz, depois que nos deixaste.
Torna, meu claro sol; torna, meu bem:
Qual é o Josué que te detém?
Depois que deste vale t'apartaste,
Não pasce já algum gado, com secura;
Secou-se o campo, des que lhe negaste
Dos teus formosos olhos a luz pura;
Secou-se a fonte, donde já te olhaste,
Quando menos, que agora, áspera e dura;
Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,
Às cabras pasto e leite aos cabritos.
Sem ti, doce cruel minha inimiga,
A clara luz, escura me parece:
Este ribeiro, quando a dor m'obriga,
Com meu chorar por ti contino cresce.
Não há fera, a que a fome não persiga;
Algum prado sem ti já não floresce:
Cegos estão meus olhos; nada veem,
Porque não podem ver seu claro bem.
O campo, como d'antes, não s'esmalta
De boninas azuis, brancas, vermelhas;
Falta água ao pasto, e sentem d'água a falta
As cândidas pacíficas ovelhas:
Bem conhecem também que o céu lhes falta
As doces e solícitas abelhas:
Com lágrimas, que manam dos meus olhos,
A terra nos produz duros abrolhos.
Torna pois já, pastora, ao nosso prado,
Se restituir-lhe queres a alegria:
Alegrarás o vale, o campo, o gado,
E aquele espelho teu da fonte fria.
Torna, torna, meu sol tão desejado,
Farás a noite escura, claro dia;
E alegra já esta vida magoada,
Em que só tua ausência é Parca irada.
Vem, como quando o raio transparente
Deste nosso horizonte, qu'escondido,
Deixa um certo temor à mortal gente,
Causado de ver o orbe escurecido;
E quando torna a vir claro e luzente,
Alegra o mundo todo entristecido:
Que assim é para mim tua luz pura
Claro sol, como a ausência noite escura.
Mas tu 'squecida já do bem passado,
E do primeiro amor, que me mostraste,
Teu coração de mim tens apartado,
Não menos que do vale t'apartaste.
Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado?
Não sou eu mesmo aquele que tu amaste?
Onde o meu erro viste, ou desvario,
Que pôde merecer-te um tal desvio?
Bem vês que por Amor se move tudo,
E que dele não há quem seja isento;
O mais simple animal, mais baixo e rudo,
O demais levantado pensamento:
Debaixo d'água fria o peixe mudo
Também lá tem d'ardor seu movimento.
Pois as aves, que no ar cantando voam,
Não menos umas d'outras s'afeiçoam.
A música do leve passarinho
Que sem concerto algum solta e derrama,
De um raminho saltando a outro raminho,
Mostra que por amor suspira e chama.
Enquanto no secreto amado ninho
Não acha aquele, que só busca e ama,
No canto, a nós alegre, triste chora,
Porque teme perder a quem namora.
A fera, que é mais fera, e o leão,
Sempre acha outro leão, sempre outra fera,
Em quem possa empregar uma afeição,
Que o conversar no peito seu lhe gera:
Também sabe sentir sua paixão,
Também suspira, morre, desespera;
Acena, salta, brada, ferve e geme;
E não temendo a nada, a Amor só teme.
O cervo, qu'escondido e emboscado,
Temendo ao cobiçoso caçador,
Está na selva, monte, bosque, ou prado,
Ali donde anda e vive, vive amor.
De temor e d'amor acompanhado,
Com justa causa amor tem e temor:
Temor a quem para feri-lo vinha,
Amor a quem já, já ferido o tinha.
Pois se a fera insensível, que não sente,
Também sente d'Amor a flecha dura,
Porqu'a ti não t'abranda um fogo ardente,
Que procede da tua formosura?
Porqu'escondes a luz do sol à gente,
Que nesses olhos trazes bela e pura?
Mais pura, mais suave, mais formosa,
Que lírio, que jasmim, que cravo e rosa.
Pode ser, se me visses, que sentiras
Ver liquidar um peito em triste pranto;
E bem pouco fizeras, se me viras,
Pois eu só por te ver suspiro tanto:
As mágoas, os suspiros, que m'ouviras
Te puderam mover a grande espanto,
A dor, a piedade, a sentimento,
E a mais, que para mais é meu tormento.
Os pensamentos vãos, que o vento leve:
O suspirar em vão também ao vento;
Um esperar à calma, à chuva, à neve,
E nunca poder ver-te um só momento;
Tormento é, que somente a ti se deve.
E se pode inda haver maior tormento,
Quem te viu, e se vê de ti ausente,
Muito mais passará mais levemente.
Faz mossa a pedra dura em sua dureza
Com a água que lhe toca brandamente;
Abranda o ferro forte a fortaleza,
Se lhe toca também o fogo ardente:
Em ti só desconheço a natureza;
Que, a ser de pedra ou ferro totalmente,
Já teu peito cruel fora desfeito
Das águas e das chamas do meu peito.
Quando a formosa Aurora mostra a fronte,
Alegra toda a terra, vendo o dia;
Quando Febo aparece no horizonte,
Manifesta também grande alegria;
Contente pasce o gado ao pé do monte,
Contente a beber vai na fonte fria:
Está tudo contente, alegre tudo;
Eu só, só pensativo, triste e mudo.
Se já d'alma e do corpo tens a palma,
E do corpo sem alma não tens dó,
Há dó do corpo só, qu'está sem alma,
Pois sem alma não vive o corpo só.
Nas chamas e no ardor, no fogo e calma,
Na afeição, no querer eu sou um só:
Não acharás vontade tão cativa;
Nem outra como a tua tão esquiva.
Se te apartas por não ouvir meu rogo,
Onde estiveres te hei d'importunar:
Posto que vás por água, ferro, ou fogo,
Contigo em toda parte m'hás d'achar;
Que o fogo em que ardo, e a água em que m'afogo,
Enquanto eu vivo for, hão de durar;
Pois o nó, que m'enlaça, é de tal sorte,
Que não se há de soltar em vida, ou morte.
Neste meu coração sempr'estarás,
Enquanto a alma estiver com ele unida:
Também o meu esprito possuirás
Depois que a alma do corpo for partida.
Por mais e mais que faças, não farás
Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida:
Impossível será qu'eternamente
Ausente estês de mim, estando ausente.
Cá m'acompanhará vossa memória,
Se o rio, que se diz do esquecimento,
Da minha não borrar tão longa história,
Tão grave mal, tão duro apartamento.
Até quando vos veja entrar na glória,
Viverei num contino sentimento:
E ainda então vereis (s'isto ser possa)
Esta minh'alma lá servir a vossa.
Aqui com grave dor, com triste acento,
Deu o triste pastor fim a seu canto:
Co'o rosto baixo e alto o pensamento,
Seus olhos começaram novo pranto:
Mil vezes parar fez no ar o vento,
E apiedou no céu o coro santo:
As circunstantes silvas s'inclinaram,
Condoídas das mágoas qu'escutaram.
Com ũa mão na face, reclinado,
Tão enlevado em sua dor estava,
Que, como em grave sono sepultado,
Não via que já o sol no mar entrava.
Berrando andava em roda o manso gado,
Que o seguro curral já desejava:
Nas covas as raposas, e em seus ninhos
Se recolhem os simples passarinhos.
Já sobre um seco ramo estava posto
O mocho com funesto e triste canto:
Ao som dele o pastor ergueu o rosto,
E viu a terra envolta em negro manto.
Quebrando então o fio de seu gosto,
E o fio não quebrando de seu pranto,
Por não se descuidar de seu cuidado,
Levou para os currais o manso gado.
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
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