Prestito fúnebre
Guerra Junqueiro · Os Simples (1920), pp. 29-35
Que alegrias virgens, campezinas, fremem
N'este imaculado, limpido arrebol!
Como os galos cantam!... como as noras gemem!...
Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
Refulgente e novo passarinha o sol!...
Pela estrada, que entre cerejais ondea,
Uma pequerrucha,--tro-la-ró-la-rá!--
Vai cantando e guiando o carro para a aldeia...
São os bois enormes, e a carrada cheia
Com um castanheiro apodrecido já.
Oh, que donairosa, linda boieirinha!
Grandes olhos garços, sorrisinho arisco...
D'aguilhada em punho lepida caminha,
Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.
Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
Fresca como os cravos pelo amanhecer;
Brincos de cerejas presos nas orelhas,
Na boquita rósea tres canções vermelhas,
Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!
Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
Nada mais esvelto, mais encantador!
Veste-a d'oiro a glória do bom sol amigo...
O chapeu é palha que inda há um mez deu trigo,
A saíta é linho inda há bem pouco em flor!...
E os dois bois enormes, colossais, fleugmaticos,
Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
Vão como bondosos monstros enigmaticos,
Almas por ventura d'ermitões extaticos
Ruminando biblias pelos campos fora!...
Ao arado e ao carro presos noite e dia,
Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
E, submissos, uma pequerrucha os guia!
E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
As boninas riem-se e amadura o pão!...
Levam as serenas frontes magestosas
Enramalhetadas como dois altares:
Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
Abelhões ardentes desflorando rosas,
Borboletas claras em noivado, aos pares...
E eis no carro morto o castanheiro, enquanto
Melros assobiam nos trigais além...
Heras amortalham-no em seu verde manto...
Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto...
Que feliz cadaver, que até cheira bem!...
Musgos, lichens, fetos,--chimica incessante!--
Fazem montões d'almas d'essa podridão...
Já n'esse esqueleto seco de gigante,
Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
Mil milhões de vidas polulando estão!...
Sempre à fortaleza casa-se a doçura:
Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
Do seu tronco ainda na caverna escura
Um enxame d'oiro rutilo murmura,
Construindo um favo candido de mel!...
Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
Meditando estranhas, incubas visões!...
Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
E por sobre os longos, torridos caminhos
Dos seus olhos caem bençãos e perdões...
Chorarão o velho castanheiro ingente,
Sob o qual dormiram sestas estivais?
Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
Saberá acaso misteriosamente
Traduzir as lingoas em que vós falais?!...
Castanheiro morto! que é da vida estranha
Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
E criou raízes, e se fez tamanha,
Que tresentos anos sobre uma montanha
Seus tresentos braços de colosso ergueu?!...
Onde a alma, origem d'essas formas belas?
Em tão varias formas que sonhou dizer?
Qual a ideia, ó alma, convertida n'elas?
E desfeito o encanto, que nos não revelas,
Que aparencias novas tomará teu ser?...
Noite escura!... enigmas!... Ai, do que eu preciso,
Boieirinha linda, linda d'encantar,
É d'essa inocência, d'esse paraíso,
Da alegria d'oiro que há no teu sorriso,
Da candura d'alva que há no teu olhar!...
Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
Quem me dera a vossa mansidão christã!
Arrotear os campos, fecundar a vinha,
E nos olhos garços d'uma boieirinha,
Ter duas estrelas virgens da manhã!...
E também quizera, mortos castanheiros,
Como vós erguer-me para o sol a flux,
Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
E n'um lar de choça, em festivais braseiros,
A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!...
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
Frases tiradas deste poema
Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.
Que alegrias virgens, campezinas, fremem N'este imaculado, limpido arrebol!
Prestito fúnebre, de Guerra JunqueiroVerificada
Como os galos cantam!... como as noras gemem!...
Prestito fúnebre, de Guerra JunqueiroVerificada
Refulgente e novo passarinha o sol!...
Prestito fúnebre, de Guerra JunqueiroVerificada
Mais poemas de Guerra Junqueiro
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.