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Poema

Como eu te amo

Gonçalves Dias · Últimos Cantos

Como se ama o silêncio, a luz, o aroma, O orvalho n’uma flor, nos céos a estrela, No largo mar a sombra de uma vela, Que lá na extrema do horisonte assoma; Como se ama o clarão da branca lua, Da noite na mudez os sons da flauta, As canções saudosissimas do nauta, Quando em mole vai-vem a náo flutua; Como se ama das aves o gemido, Da noite as sombras e do dia as cores, Um céo com luzes, um jardim com flores, Um canto quasi em lágrimas sumido; Como se ama o crepusculo da aurora, A mansa viração que o bosque ondeia, O susurro da fonte que serpeia, Uma imagem risonha e sedutora; Como se ama o calor e a luz querida, A harmonia, o frescor, os sons, os céos, O silêncio, as cores, o perfume, a vida, Aos pais e à patria e à virtude e à Deos. Assim eu te amo, assim; mais do que podem Dizer-t’o os labios meus, — mais do que vale Cantar a voz do trovador cançada: O que é belo, o que é justo, santo e grande Amo em ti. — Por tudo quanto sofro, Por quanto já sofri, por quanto ainda Me resta de sofrer, por tudo eu te amo. que espero, cobiço, almejo, ou temo De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas Com quanto amor eu te amo, e de que fonte Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo! Esta oculta paixão, que mal suspeitas, Que não vês, não supões, nem te revelo, Só pode no silêncio achar consolo, Na dor augmento, interprete nas lágrimas. De mim não saberás como te adoro; Não te direi jámais, Se te amo, e como, e a quanto extremo chega Esta paixão voraz! Se andas, sou o écho dos teus passos; Da tua voz, sc falas; O murmurio saudoso que responde Ao suspiro que exhalas. No odor dos teus perfumes to procuro, Tuas pegadas sigo; Velo teus dias, te acompanho sempre, E não me vês contigo! Oculto, ignorado me desvelo Por ti, que me não vês; Aliso o teu caminho, esparjo as flores, Onde pisão teus pés. Mesmo lendo estes versos, que m’inspiras, Não pensa em mim, dirás: Imagina-o, si o podes, que os meus labios. Não t’o dirão jámais! Sim, eu te amo; porém nunca Saberás do meu amor; A minha canção singela Traiçoeira não revela O premio santo que anhela O sofrer do trovador! Sim, eu te amo; porém nunca Dos labios meus saberás, Que é fundo como a desgraça, Que o pranto não adelgaça, Leve, qual sombra que passa, Ou como um sonho fugaz! Aos meus labios, aos meus olhos Do silêncio imponho a lei; Mas lá onde a dor se esquece, Onde a luz nunca falece, Onde o prazer sempre cresce, Lá saberás se te amei! E então dirás: «Objeto Fui de santo e puro amor, A sua canção singela, Tudo agora me revela; Já sei o premio que anhela O sofrer do trovador. «Amou-me como se ama a luz querida, Como se ama o silêncio, os sons, os céos, Como se ama as cores, o perfume, a vida, Os pais e a patria, e a virtude e a Deos! «Amo-o agora também como as estrelas, Como as harpas divinas, como aos céos, Como aos anjos de palmas e capelas, Que entoão córos mysticos a Deos!»

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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