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Poema

Eu

Florbela Espanca · Livro de Mágoas (1919), p. 25

Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada... a dolorida... Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!... Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber porquê... Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo p'ra me ver, E que nunca na vida me encontrou!

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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É o soneto de apresentação de Florbela Espanca: chama-se «Eu» e abre caminho no Livro de Mágoas, o primeiro dos seus três livros, publicado em 1919. Catorze versos de autorretrato, quase todos pendurados na mesma palavra: sou.

A anáfora faz o retrato por desamparo: «Eu sou a que no mundo anda perdida, / Eu sou a que na vida não tem norte», «Sou a irmã do Sonho», «Sou a crucificada... a dolorida...». O segundo quarteto carrega a figura de luto: uma «Sombra de névoa ténue e esvaecida» que o destino «Impele brutalmente para a morte!», uma «Alma de luto sempre incompreendida!...». Não há aqui metáfora difícil: há uma mulher a dizer-se invisível e de passagem.

O primeiro terceto é a solidão em três retratos, com as reticências da autora a fazer metade do trabalho: «Sou aquela que passa e ninguém vê... / Sou a que chamam triste sem o ser... / Sou a que chora sem saber porquê...». A tristeza que os outros lhe apontam nem sequer é sua; o choro não tem causa que se diga.

O terceto final vira o soneto do avesso: «Sou talvez a visão que Alguém sonhou, / Alguém que veio ao mundo p'ra me ver, / E que nunca na vida me encontrou!» A hipótese é vertiginosa: ser o sonho de outro, um desencontro em vez de uma existência. O «Alguém» de maiúscula fica por identificar, e é melhor assim: serve para um amor, para Deus, para o leitor que chegou tarde.

Doze anos separam este autorretrato do Charneca em Flor, que tem leitura própria nesta casa: lá, a mesma voz despe «a mortalha, o meu burel» e diz-se charneca a abrir em flor. Ler os dois seguidos é ver o percurso inteiro. O texto segue a edição de 1919 com a grafia atualizada pela norma do arquivo; os outros sonetos dela estão na página da autora.

Revisão editorial de Rogério Junior · atualizada a 9 de outubro de 2026.

Frases tiradas deste poema

Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.

Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte,

Eu (Livro das Mágoas), de Florbela EspancaVerificada

Postal

Sou a que chora sem saber porquê...

Eu (Livro das Mágoas), de Florbela EspancaVerificada

Postal

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Eu (Livro das Mágoas), de Florbela EspancaVerificada

Postal

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