Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Charneca em Flor

Florbela Espanca · Charneca em Flor (1931), p. 7

Enche o meu peito, num encanto mago, O frémito das coisas dolorosas... Sob as urzes queimadas nascem rosas... Nos meus olhos as lágrimas apago... Anseio! Asas abertas! O que trago Em mim? Eu oiço bocas silenciosas Murmurar-me as palavras misteriosas Que perturbam meu ser como um afago! E nesta febre ansiosa que me invade, Dispo a minha mortalha, o meu burel, E, já não sou, Amor, Soror Saudade... Olhos a arder em êxtases de amor, Boca a saber a sol, a fruto, a mel: Sou a charneca rude a abrir em flor!

Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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É o soneto que dá título ao terceiro livro de Florbela Espanca, Charneca em Flor, saído em janeiro de 1931, semanas depois da morte da poeta, a 8 de dezembro de 1930. O título é um programa inteiro: a charneca, a terra pobre e rasa do sul, posta a abrir em flor; a aridez a fazer-se vida.

O primeiro quarteto arranca com a matéria-prima da autora, a dor transformada em encanto: «Enche o meu peito, num encanto mago, / O frémito das coisas dolorosas...», e logo entrega a imagem-mãe do livro num só verso: «Sob as urzes queimadas nascem rosas...». O segundo quarteto é a ânsia e o chamamento: «Anseio! Asas abertas!», e as «bocas silenciosas» que murmuram «as palavras misteriosas / Que perturbam meu ser como um afago!».

A viragem está no primeiro terceto, e acontece à vista: «Dispo a minha mortalha, o meu burel, / E, já não sou, Amor, Soror Saudade...». O burel é o pano grosseiro dos hábitos de frade; Soror Saudade era o nome que Florbela dera a si própria no livro anterior, o Livro de Soror Saudade. Em dois versos, a poeta despe o luto e a clausura do livro que passou: a passagem de um livro ao outro acontece dentro do próprio soneto.

O terceto final é o renascimento, dito pelos sentidos: «Olhos a arder em êxtases de amor, / Boca a saber a sol, a fruto, a mel: / Sou a charneca rude a abrir em flor!» O paladar ocupa o lugar do luto, e o último verso devolve o título do livro, agora em primeira pessoa.

O texto desta página foi conferido com o fac-símile da segunda edição, de 1931: a grafia vem atualizada pela norma do arquivo e o original dessa edição fica à vista no botão junto ao poema. Os outros sonetos de Florbela estão na página da autora.

Revisão editorial de Rogério Junior · atualizada a 12 de outubro de 2026.

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