A costureira, e o pintasilgo morto
Alexandre Herculano · Poesias, 2.ª ed. (1860), pp. 327-329
Tu cujas azas tremulas
O meu olhar tornava;
Cujo trinado harmonico
Meus dias alegrava,
Ai, já não ouves!―Chamo-te,
E é vão este chamar!
Chegou a estação gelida;
Foi para te matar.
Nunca me hás de esquecer! Por bem seis anos,
Companheira leal
Tu me foste, avesinha;
Meiga entre as meigas, desprezando os campos,
Deslembrada da mãe, que, à noite, aninha
No movel canavial.
A ti, afeita a mim, afiz-me em breve.
Meu único recreio
Era brincar contigo.
Ao veres-me encerrar no pobre alvergue
Gorgeiavas, e o tédio o canto amigo
Volvia em brando enleio.
Meu amor te supria a liberdade;
Meus passos traduzias,
Meu gesto, meu falar;
Repetias-me o nome em teus modilhos;
Punhas-te a chilrear
Quando sorrir me vias.
Oh, que par! Que viver sereno e santo!
Estavamos tão bem!
Nosso parco alimento
Com a ponta da agulha eu mourejava,
E dizia cismando:―o meu sustento
É o dele também.»
Sementes varias dava-te co' a alpista,
E, qual ramalhetinho
Feito na orla do prado,
À 'splendida gaiola atar me vias,
Para debique teu, de herva um punhado,
De alface um tenro olhinho....
Se ao menos fosse licito
Saberes que pranteio!..
Ai, foi em dia identico,
Que teu adejar veio
Fazer brilhar o jubilo
Neste triste aposento,
Onde em saudosa magua,
Sósinha te lamento!
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte
Frases tiradas deste poema
Estes versos andam a circular sozinhos. Aqui ficam com o poema inteiro por trás, e com a fonte à vista.
Chegou a estação gelida; Foi para te matar.
A costureira, e o pintasilgo morto, de Alexandre HerculanoVerificada
Nunca me hás de esquecer! Por bem seis anos, Companheira leal Tu me foste, avesinha;
A costureira, e o pintasilgo morto, de Alexandre HerculanoVerificada
Mais poemas de Alexandre Herculano
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.