Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

A bilha de azeite

Gil Vicente · Contos Tradicionaes do Povo Portuguez (Teófilo Braga, 1883), pp. 352-353

Teófilo Braga recolheu este excerto do Auto da Mofina Mendes como o conto 150 dos Contos Tradicionaes do Povo Portuguez: é a versão portuguesa da fábula da leiteira, com o pote à cabeça e os planos pelo ar.

PAIO VAZ: Pois Deus quer que pague e peite, Tão daninha pegureira, Em pago desta canceira Toma este pote de azeite, E vai-o vender à feira; E quiçais, medrarás tu, O que eu contigo não posso. MOFINA MENDES: Vou-me à feira de Trancoso Logo; nome de Jesu, E farei dinheiro grosso; Do que este azeite render Comprarei ovos de pata, Que é a coisa mais barata, Que eu de lá posso trazer. E estes ovos chocarão; Cada ovo dará um pato, E cada pato um tostão, Que passará de um milhão E meio, a vender barato. Casarei rica e honrada, Por este ovo de pata, E o dia que for casada Sairei ataviada Com um brial de escarlata; E diante o desposado Que me estará namorando, Virei de dentro bailando Assi desta arte bailado Esta cantiga cantando. (Estas coisas diz Mofina Mendes com o pote de azeite à cabeça, e andando enlevada no bailo, cai-lhe, e diz:) PERO VAZ: Agora posso eu dizer E jurar e apostar Que és Mofina Mendes toda. PESSIVAL: E se ela baila na voda Qu'está ainda por sonhar, E os patos por nascer, E o azeite por vender, E o noivo por achar. E a Mofina a bailar; Que menos podia ser? (Vai-se Mofina Mendes cantando:) Por mais que a dita me enjeite Pastores, não me deis guerra; Que todo o humano deleite Como o meu pote de azeite Há de dar consigo em terra.

Grafia atualizada a partir da primeira edição, guardando as formas que são do autor. · Fonte

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