Antónia Pusich · Homenagem a Luiz de Camões (1880), pp. 5-12
Poema comemorativo do tricentenário da morte de Camões, datado de Lisboa, 10 de junho de 1880, e publicado nesse ano pela Typographia Coelho & Irmão. A edição abre com epígrafes de Os Lusíadas, e uma delas, a estância 10 do canto I, chegou a figurar nesta página, por erro de importação, como se fosse texto da autora: era de Camões, e a frase correspondente está agora atribuída a quem a escreveu. A edição fecha com notas históricas da própria Pusich sobre o monumento do Chiado, que aqui não se reproduzem.
Eil-o erguido! o faustoso monumento
Que os vindouros e o tempo hão de acatar!
Triunfou o grandioso pensamento
Que a pátria pôde alfim desafrontar.
Salve excelso Camões! na eternidade
Onde exultas de glória, e imensa luz,
Onde eclipse não há, nem tempestade
Tens ditosa, imortal vida sem cruz,
De teus lumes um raio à terra envia,
A pátria que foi tu'aos filhos seus!
Portugal te consagra neste dia
A homenagem devida aos manes teus!
Sem te erguerem padrões, olvido ingente,
Dormem séculos três povos e reis!
Mas... Fernando, e Luís, co'a lusa gente
Cumprem do alto dever sagradas leis!
De seu filho adorado não podia
A pátria o nome, e as honras esquecer!
As nações têm a sua letargia...
Mas os brios jamais hão de morrer!
Em teu canto divino eternizaste
De terrenas ações glória e louvor,
Dos heróis que de louros coroaste,
Grande assunto!... maior inda o cantor!...
Dá cobiça de fama aos feitos alma
A ti foi pátrio amor co'a luz dos céus!...
De mártir, e de herói ganhaste a palma
Lauréis, honras e amor!... dignos troféus,
E verás Portugal pagando o preito
Devido ao grande herói dos nautas rei;
Que aos perigos expondo o egrégio peito,
Ao fero Adamastor impôs a lei!
Que viu nascer o sol em berço d'oiro,
E do Oriente, à pátria, as chaves deu!
Que inspirando Camões, melhor tesoiro,
Mais subido valor ofereceu!
Padrão sublime, honroso monumento
Do Gama ilustre as cinzas guardará!
A pátria imortalize o sentimento
Pois a fama do herói eterna é já.
E pudeste, nação altiva e forte
Algum tempo olvidar teu próprio ser,
Despertas! o letargo iguala a morte!
Contempla, oh! quanto é belo o alvorecer!
Ouviste alto clamor, supremo brado
Dizer a Portugal — reparação!
E o justo entusiasmo redobrado
Veloz passa da mente ao coração!
Vidigueira briosa que soubeste,
Os memorandos restos conservar;
C'roa deste de louro e de cipreste
A quem deu brilho à terra, e leis ao mar!
Salve oh! Gama! guiou-te ao oriente
A estrela do teu sonho nacional!
O universo abrangendo esplandecente,
Eil-a agora farol setentrional!
Mostraste à Europa um mundo antes não visto!
Domaste os mares, invocando os céus!
Levaste ao povo inculto a lei de Cristo,
Trouxeste à pátria inúmeros troféus!
A heróis marcaste o trilho, e mais que humanos
Trocando as vidas pela glória os vês!
Dos evos não sofrendo horríveis danos
Renome dando ao nome português.
Sobre escolhos firmar pudeste um templo!
Respeitam-no terríveis escarcéus!
E depois, que aos heróis legaste o exemplo,
Às alturas voaste! à glória, aos céus!
Tais prodígios Camões ao mundo of'rece!
Une à pátria os heróis, e o nome seu!
De sempiterna luz, vive, esplandece.
Quem na voz de Camões se engrandeceu!
Camões! vate sublime, o ínclito Gama,
Em teus cantos eterno inda reluz!
Deste ao mérito altares, culto, fama!
Sê meu fanal! ao templo me conduz!
Na soidão que busquei, saudosa, triste,
Junto à dor sente o opresso coração,
O amor que do cristão no peito existe,
Que se expressa na voz da gratidão!
Os séculos venceste, oh! génio imenso.
Das mais longínquas, vastas regiões,
Em tributo as nações dão loiro incenso,
Homenagem ao nome de Camões.
Eu dou-te uma oração!... dessas alturas,
Onde os voos ergueste Águia veloz,
Cisne, ou astro, onde vives e fulguras
Dá luz às trevas, dá-me força à voz!
O teu nome cantar hoje pretendo,
E o débil peito nem resiste à dor!
À virtude homenagem of'recendo,
Pintar quero as grandezas do Senhor!
Habitando inda a terra, este ermo triste,
Sondaste a eternidade, e mais que Orfeu,
Do remoto porvir arcanos viste,
E o laurel destinado ao nome teu.
Camões vate, e guerreiro se a áurea lira
Os sons quisesse à terra conferir,
Saudoso o Tejo, que por ti suspira,
Seu giro suspendera p'ra te ouvir!
Cantaste ao som das procelas
As glórias de Portugal,
Disseste ao sol, e às estrelas,
Que uma luz à sua igual
Têm de heróis as ações belas,
D'alta fama perenal!
Cantaste dos lusitanos,
Que inda o são, vitórias mil,
Desde os godos e romanos,
E depois do mouro hostil,
E dos lusos soberanos
Cantaste o ardor varonil:
Que d'África avassalaram
Terras tantas com saber,
E com valor alcançaram
Seus domínios estender,
Descobrindo sujeitaram
Novo mundo ao seu poder!
Mas hoje lamentarias
Um progresso ardente e vão!
Quantas colónias verias
Onde não fulge o pendão,
Que aos povos e monarquias
Deu riqueza e galardão!
Por nova estrada avançando
Tornaras a ver Suez,
E o mar Eritreu passando
Distante o Sinai lá vês,
Meca, o nome recordando
Do teu solo português.
Os vergéis mais perfumados,
A espessura de Ceilão,
Sincapura e os festejados
Lindos jardins de Pinão;
No comércio exercitados
Os povos sem instrução!
Viras povo sem cultura
Sucumbindo ao jugo inglês,
Foi tão outro na ventura
Sob o mando português!
Quadro de tanta amargura
Não vejamos outra vez!
Suspenderias a lira
Que o céu de estrelas c'roou,
Sentindo que inda respira
Um eco, e os ais acordou
Na Gruta, que outrora ouvira
Teu canto que a eternizou!
E soltaras um gemido,
Em vez de etérea canção,
Vendo o teu Jau esquecido
No glorioso padrão,
Que ao teu nome esclarecido
Erige a lusa nação!...
Que estampido ao longe soa!!...
É o ribombar do canhão!
Já do Tejo às margens voa
Povo imenso em união!
De Camões o nome ecoa.
Do universo na extensão!...
Deslumbrada co'a luz não vi o espaço
Na amplidão que divide a terra e o céu!
Infindo é o sentimento, eterno o laço
Que ligou Portugal ao nome teu!
Nem já seguir teus voos posso agora,
Na mente em sombras esvaece a luz!
De quem sofrendo aguarda a eterna aurora
É culto uma oração aos pés da Cruz,
Silêncio!... a artilharia o espaço atroa!
Oh! salve honrosa luz de Portugal!
O teu nome alta fama no orbe entoa,
Memória tens, eterna universal!
Não morreste Camões! vives na história,
Nos Lusíadas teus de imortal fama!
Nos fiéis corações, e na memória
De quem a pátria tua não desama,
Do tempo alcanças perenal vitória,
Na mente que de etéreo ardor se inflama,
Do mais nobre sentir no honroso empenho.
Seguindo em voos teu celeste engenho!
Não morreste Camões! tu'áurea lira
Doaste aos lusos teus, irmãos queridos.
Em seus cantos que o mundo atento admira,
Teus sons divinos vivem repetidos!
É tu'esta saudade que suspira;
Que exalaste nos últimos gemidos!
A que por esta pátria então sentiste
Na pátria com teu nome eterna existe!
No grandioso quadro do universo,
As vindoiras idades meditando,
O sublime padrão escrito em verso,
Contemplem, qual farol que as vai salvando,
Do escuro e fundo abismo, onde submerso
Jaz o mundo sem luz abrolhos dando!
No clarim hão de ouvir de eterna fama,
Portugal e Camões! — o Oriente e o Gama!
Grafia atualizada a partir da edição de origem, guardando as formas que são do autor. · Fonte