Ditos

As palavras para cada ocasião.

Poema

Miragaia

Almeida Garrett · Miragaia, no Romanceiro, partes I a IV

Do Romanceiro de Garrett: o romance de Miragaia inteiro, nas suas quatro partes. Esteve aqui publicado como quatro poemas separados.

I Noite escura tão formosa, Linda noite sem luar, As tuas estrelas de oiro Quem n'as poderá contar! Como as folhinhas do bosque, Como as areias do mar… Em tantas letras se escreve O que Deus mandou guardar. Mas guai do homem que se fia N'essas letras decifrar! Que a ler no livro de Deus Nem anjo pode atinar. Bem ledo está Dom Ramiro Com sua dama a folgar; Um perro bruxo judio Foi causa de ele a roubar: Disse-lhe que pelos astros Bem lhe podia afirmar Que Zahara, a flor da beleza, Lhe devia de tocar. E o rei veio de cilada D'além do Doiro passar, E furtou a linda moira, A irman d'Alboazar. A Milhor, que é terra sua E está à beira do mar, Se acolheu com sua dama, Nem de mais sabe cuidar. Chora a triste da rainha, Não se pode consolar: Deixá-la por ũa moira Deixá-la com tal dezar! E a noite é escura cerrada, Noite negra sem luar, Sosinha no seu balcão Assim se estava a queixar: — «Rei Ramiro, rei Ramiro, Rei de muito mau pezar, Em que te errei d'alma ou corpo, Que fiz para tal penar? «Diz que é formosa essa moira, Que te soube infeitiçar… Mas tu dizias-me d'antes Que eu era bela sem par. «Que é môça, na flor da vida… Eu, se ainda bem sei contar, Há tres que tinha vinte anos, Fi-los depois de casar. «Diz que tem os olhos pretos, D'estes que sabem mandar… Os meus são azues, coitados! Não sabem senão chorar. «Zahara, que é flor, lhe chamam, A mim, Gaia… Que acertar! Eu fiquei sem alegria, A flor quem lh'a hade voltar? «Oh! quem podéra ser homem, Vestir armas, cavalgar, Que eu me fora ja direita A esse moiro Alboazar…» Palavras não eram ditas, Os olhos foi a abaixar, Muitos vultos acercados Ao palacio viu estar. — «Peronela, Peronela, Criada do meu mandar, Que vultos serão aqueles Que por ali vejo andar?» Peronela não responde: Que havia de ela falar? Ricas peitas de oiro e joias A tinham feito calar. A rainha que se erguia Por sua gente a bradar, Sete moiros cavaleiros A foram logo cercar; Soltam prégas de um turbante, A boca lhe vão tapar; Tres a tomaram nos braços… Nem mais um ai pôde dar. Criados da sua casa, Nenhum veio a seu chamar; Ou peitados ou cativos Não n'a podem resgatar. São sete os moiros que entraram, Sete os estão a aguardar; Não falam nem uns nem outros… E prestes, a cavalgar! So um, que de arção a toma, Parece aos outros mandar… Juntos juntos, certos certos, Galopa a bom galopar! Toda a noite, toda a noite Vão correndo sem cessar; Pelos montes trote largo, Por vales a desfilar. Nos ribeiros — peito n'agua, Chape, chape, a vadear! Nas defesas dos valados Up! salto — e a galgar! Vai o dia alvorecendo, Estão à beira do mar. Que rio é este tão fundo Que n'ele vem desaguar? A boca ja tinha livre, Mas não acerta a falar A pasmada da rainha… Cuida ainda de sonhar! — «Rio Doiro, rio Doiro, Rio de mau navegar, Dize-me, essas tuas aguas Aonde as foste buscar? «Dir-te-hei a perola fina Aonde eu a fui roubar. Ribeiros correm ao rio, O rio corre a la mar, «Quem me roubou minha joia, Sua joia lhe fui roubar.» O moiro que assim cantava, Gaia que o estava a mirar… Quanto o mais mirares, Gaia, Mais formoso o hasde achar. — «Quantos barcos ali véem!» — «Barcos que nos véem buscar.» — «Que lindo castelo aquele!» — «É o do moiro Alboazar.» II Rei Ramiro, rei Ramiro, Rei de muito mau pezar, Ruins fadas te fadaram, Má sina te foram dar. Do que tens não fazer conta, O que não tens cubiçar..! Zahara, a flor de teus cuidados, Ja te não dá que pensar. A rainha, que era tua, Que não soubeste guardar, Agora morto de zelos Do moiro a queres cobrar. Oh!.. que barcos são aqueles Doiro acima a navegar? A noite escura cerrada, E eles mansinho a remar… Cozeram-se com a terra, Lá se foram incostar; Entre os ramos dos salgueiros Mal se podem divisar. Um homem saltou em terra: Onde irá n'aquele andar? Leva bordão e esclavina, Nas contas vai a rezar. Inda a névoa tolda o rio, O sol ja vem a rasgar, Pela incosta do castelo Vai um romeiro a cantar: — «Santiago de Galiza, Longe fica o vosso altar: Peregrino que la chegue Não sabe se hade voltar.» Na incosta do castelo Uma fonte está a manar; Donzela que está na fonte Pôs-se o romeiro a escutar. A donzela está na fonte, A jarra cheia a deitar: — «Bendito sejais, romeiro, E o vosso doce cantar! «Por estas terras de moiros É maravilha de azar, Ouvir cantigas tão santas Cantigas do meu criar. «Sete padres as cantavam À roda de um bento altar; Outros sete respondiam No coro do salmear, Entre véspera e completas; E os sinos a repicar. «Ai triste da minha vida Que os não oiço ja tocar! E as rezas d'estes moiros Ao demo as quizera eu dar.» — «Deus vos mantenha, donzela, E o vosso cortez falar: Por estas terras de moiros Quem tal soubera de achar! «Por vossa tenção, donzela, Uma reza heide rezar Aqui ao-pé d'esta fonte, Que não posso mais andar. «Oh! que fresca está a fonte, Oh! que sede de matar! Que Deus vos salve, donzela, Se aqui me deixais sentar.» — «Sente-se o bom do romeiro, Assente-se a descansar. Fresca é a fonte, doce a agua, Tem virtude singular: «D'outra não bebe a rainha Que aqui m'a manda buscar Por manhanzinha bem cedo Antes de o sol aquentar.» — «Doce agua deve de ser, De virtude singular: Dae-me vós uma vez d'ela Que me quero consolar.» — «Beba o peregrino, beba Por esta fonte real, Cântara de prata virgem, Tem mais valor que oiro tal.» — «Dona Gaia que diria, Que faria Alboazar Se visse o pobre romeiro Beber da fonte real?..» — «Inda era noite fechada Meu senhor foi a caçar: Maus javardos o detenham, Que é bem ruim de aturar! «Minha senhora, coitada, Essa não tem que falar: Quem ja teve fontes de oiro Prata não sabe zelar.» — «Pois um recado, donzela, Agora lhe heisde levar; Que o romeiro christão Lhe deseja de falar «Da parte de um que é ja morto, Que morreu por seu pezar, Que à hora de sua morte Este anel lhe quiz mandar.» Tirou o anel do dedo, E na jarra o foi deitar: — «Quando ela beber da agua No anel hade atentar.» Fora d'ali a donzela, Ia morta por falar… — «Anda ca, ó Peronela, Criada de mau mandar, «Tua ama morrendo à sede E tu na fonte a folgar?» — «Folgar não folguei, senhora, Mas deixei-me adormentar, «Que a moira vida que eu levo Ja não n'a posso aturar. Ai terra da minha terra, Ai Milhor da beira-mar! «Aquela sim que era vida, Aquilo que era folgar! E em santo temor de Deus, Não aqui n'este pecar!» — «Cal-te, cal-te, Peronela, Não me queiras atentar; Que eu a viver entre moiros Me não vim por meu gostar. «Mas ja tenho perdoado A quem lá me foi roubar, Que antes escrava contente Do que rainha a chorar. «Forte christandade aquela, Bom era aquele reinar! Viver so, desemparada, Ver a moira em meu logar!..» Lembrava-lhe a sua ofensa, Está-lhe o sangue a queimar… Na agua fria da fonte A sede quiz apagar. A fonte de prata virgem À boca foi a levar, As ricas pedras do anel No fundo viu a brilhar. — «Jesus seja c'o a minha alma! Feitiços me querem dar… O fogo a arder dentro n'agua E ela fria de nevar!» — «Senhora, c'o esses feitiços Me tomara eu imbruxar! Foi um bendito romeiro Que à fonte fui incontrar, «Que aí deitou esse anel Para próva singular De um recado que vos trouxe Com que muito heisde folgar.» — «Venha ja esse romeiro, Que lhe quero ja falar: Embaixador deve ser Quem traz presente real.» III Por Deus vos digo, romeiro, Que vos queirais levantar; Minhas mãos não são reliquias, Basta de tanto beijar!» O romeiro não se erguia, As mãos não lhe quer largar; Os beijos uns sobre os outros Que era um nunca acabar. Ia a infadar-se a rainha, Ouviu-o a soluçar, E as lagrymas, quatro e quatro, Nas mãos sentia rolar: — «Que tem o bom do romeiro Que lhe dá tanto pezar? Diga-me las suas penas Se lh'as posso aliviar.» — «Minhas penas não são minhas, Que aos mortos morre o penar: Mas a vida que eu perdi Em vós podia incontrar. «Minhas penas não são minhas, Senão vossas, mal pezar! Que uma rainha christan Feita moira vim achar…» — «Romeiro não tomeis coita Por quem se não quer coitar: Do que fui ja me não lembro, O que sou não me é dezar. «Deus tera dó da minha alma, Que meu não foi o pecar; E a esse traidor Ramiro As contas lhe hade tomar.» — «Pois não espereis, senhora, Por Deus que pode tardar: Dom Ramiro aqui o tendes, Mandae-o ja castigar.» Em pé está Dom Ramiro, Ja não há que disfarçar: Aquelas barbas tão brancas Cahiram de um impuxar; O bordão e a esclavina A terra foram parar: Não há ver mais gentilezas De meneio e de trajar. Quem viu olhos como aqueles Com que o ela está a mirar! Quem passou ja transes d'alma Como ela está a passar? Um tremor que não é medo, Um surriso de infiar, Vergonha que não é pejo, Faces que ardem sem corar… Tudo isso tem no semblante, Tudo lhe está a assomar Como ondas que vão e véem Na travessia do mar. A vingança é o prazer do homem; Da mulher, é seu manjar: Assim perdoa ele e vive, Ela não — que era acabar. Vingar-se foi o primeiro E o derradeiro pensar Que, entre tantos pensamentos, Em Gaia estão a pular: Logo depois a vaidade, O gosto de triunfar N'um coração que foi seu, Que seu lhe torna a voltar. E o rei moiro estava longe C'os seus no monte a caçar, Ela so n'aquela tôrre… Prudencia e dissimular! Abre a boca a um surriso Doce e triste — de matar! Tempéra a chama dos olhos, Abafa-a por mais queimar. Pôs na voz aquele incanto Que — ou minta ou não, é fatal. E, com o inferno no seio, Fala o céu no seu falar. Ja os amargos queixumes Se imbrandecem no chorar, E em sua própria justiça Com arte finge afrouxar. Protesta a boca a verdade: «Que não hade perdoar…» Mas a verdade dos labios Os olhos querem negar. De joelhos Dom Ramiro Ali se estava a humilhar, Suplica, roga, promete… Ela parece hesitar. Senão quando uma bozina Se ouviu ao longe tocar… A rainha mal podia O seu prazer disfarçar: — «Escondei-vos, Dom Ramiro, Que é chegado Alboazar; Depressa, n'este aposento… Ou ja me vereis matar.» Mal a chave deu tres voltas, Na manga a foi resguardar; Mal tirou a mão da cota, Que o rei moiro vinha a entrar. — «Tristes novas, minha Gaia, Novas de muito pezar! Primeira vez em tres anos Que me sucede este azar!.. «Toquei a minha bozina Ás portas, antes de entrar, E não correste ás ameias Para me ver e saudar! «Muito mal fizeste, amiga, Em tão mal me costumar: Não sei que fazes agora Em me querer emendar…» No coração da rainha Batalha se estão a dar Os mais estranhos afetos Que nunca se hãode incontrar: O que foi, o que é agora, E a ambição de reinar… O amor que tem ao moiro, E o gosto de se vingar… Venceu amor e vingança: Deviam de triunfar, Que era em peito de mulher Que a batalha se foi dar. — «Novas tenho e grandes novas, Amigo, para vos dar: Tomae esta chave e abride, Vereis se são de pezar.» Com que ância ele abriu a porta, Vista que foi incontrar!.. Palavras que ali disseram, Não n'as saberei contar: Que foi um bramir de ventos, Um bater d'aguas no mar, Um confundir céu e terra, Querer-se o mundo acabar… Vereis por fim o rei moiro Que sentença veio a dar: — «Perdeste a honra, christão: Vida, quero-t'a deixar. «De uma vez que me roubaste Muito bem me fiz pagar: D'esta basta-me a vergonha Para de ti me vingar.» Sentia-se elrei Ramiro Do despeito devorar; Com ar contrito e afligido Assim lhe foi a falar: — «Grandes foram meus pecados, Poderoso Alboazar; E tais que a mercê da vida De ti não posso aceitar: «Eu não vim a teu castelo Senão so por me intregar, Para receber a morte Que tu me quizeres dar: «Que assim me foi ordenado Para minha alma salvar Por um santo confessor A quem me fui confessar. «E mais me disse e mandou, E assim t'o quero rogar, Que, pois foi pública a ofensa, Público seja o penar: «Que aí n'essa praça d'armas Tua gente faças juntar, Aí deante de todos A vida quero acabar «Tangendo n'esta bozina, Tangendo até rebentar; Que digam os que isto virem, E lhes fique de alembrar: «Grande foi o seu pecado, «No mundo andou a soar; «Mas a sua penitencia «Mais alto som veio a dar.» Quizera-lhe o bom do moiro Por fôrça ali perdoar: Mas se a pêrra da rainha Jurou de à morte o levar!… Veis na praça do castelo, Toda moirama a ajuntar; Em pé no meio da turba Ramiro se foi alçar. Tange que lhe tangerás, Toca rijo a bom tocar; Por muitas leguas à roda Reboava o bozinar. Se o ouvirão nas galés Que deixou a beira-mar? De-certo ouviram, que um grito Tremendo se ouve soar… IV «Santiago!.. Cerra, cerra! Santiago, e a matar!» Abertas estão as portas Da tôrre de par em par; Nem atalaias nos muros Nem roldas para as velar… Os moiros despercebidos Sentem-se logo apertar De um tropel de leonezes Ja portas a dentro a entrar. Deixa a bozina Ramiro, Mão à espada foi lançar, E, de um só golpe fendente, Sem mais pôr nem mais tirar, Parte a cabeça até os peitos Ao rei moiro Alboazar. Ja tudo é morto ou cativo, Ja o castelo está a queimar, Ás galés, com seu despôjo, Se foram logo imbarcar. — «Voga, rema! d'além Doiro À pressa, à pressa a passar, Que ja oiço ali na praia Cavalos a relinchar. «Bandeiras são de Leão Que lá vejo tremular: Voga, voga, que além Doiro É terra nossa!.. a remar! «D'aqui é moirama cerrada Até Coimbra e Tomar. Voga, rema, e d'além Doiro! D'aquem não há que fiar.» À popa vai Dom Ramiro De sua galé real, Leva a rainha à direita Como quem a quer honrar: Ela muda, os olhos baixos Leva n'agua… sem olhar, E como quem de outras vistas Se quer so desafrontar. Ou Dom Ramiro fingia Ou não vem n'isso a atentar: Ja vão a meia corrente, Sem um para o outro falar. Ainda arde, inda fumega O alcaçar de Alboazar: Gaia alevantou os olhos, Triste se pôs a mirar; As lagrymas, uma e uma, Lhe estavam a desfiar, Ao longo, longo das faces Correm… sem ela as chorar. Olhou elrei para Gaia, Não se pôde mais calar: Cuidava o bom do marido Que era remorso e pezar Do mau termo atraiçoado Que com ele fora usar Quando o intregou ao moiro Tão so para se vingar. Com a voz internecida Assim lhe foi a falar: — «Que tens, Gaia… minha Gaia? Ora pois! não mais chorar, «Que o feito é feito…» — «E bem feito!» Tornou-lhe ela a soluçar, Rompendo agora n'uns prantos Que parecia estalar: «E bem feito, rei Ramiro! Valente ação! de pasmar! À lei de bom cavaleiro, Para de um rei se contar! «À falsa fe o mataste… Quem a vida te quiz dar! À traição… que d'outro modo Não es homem para tal. «Mataste o mais belo moiro, Mais gentil, mais para amar Que entre moiros e christãos Nunca mais não tera par. «Perguntas-me porque choro!.. Traidor rei, que heide eu chorar? Que o não tenho nos meus braços, Que a teu poder vim parar. «Perguntaste-me o que miro!.. Traidor rei, que heide eu mirar? As tôrres d'aquele alcaçar Que ainda estão a fumegar: «Se eu fui ali tão ditosa, Se ali soube o que era amar, Se ali me fica alma e vida… Traidor rei, que heide eu mirar?» — «Pois mira, Gaia!» E, dizendo, Da espada foi arrancar: «Mira, Gaia, que esses olhos Não terão mais que mirar.» Foi-lhe a cabeça de um talho; E com o pé, sem olhar, Borda fora impuxa o corpo… O Doiro que os leve ao mar. Do estranho caso inda agora Memória está a durar: Gaia é o nome do castelo Que ali Gaia fez queimar; E d'além Doiro, essa praia Onde o barco ia a aproar Quando bradou «Mira, Gaia!» O rei que a vai degolar, Ainda hoje está dizendo Na tradição popular, Que o nome tem — Miragaia D'aquele fatal mirar.

Grafia atualizada a partir da primeira edição, guardando as formas que são do autor. · Fonte

Partilhar

Mais poemas de Almeida Garrett

Sabes mais sobre isto?

Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.

Só publicamos depois de ler. Não guardamos o teu endereço de IP, só uma impressão digital dele para travar abuso.