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Lenda

A Moura da Ponte de Trajano

A ponte romana de Chaves leva quase dois mil anos em cima do Tâmega: fê-la o império entre o final do século I e o início do II, no tempo de Trajano, e o povo, que sabe a quem pertencem as pontes, deu-lhe o nome do imperador. Obra assim não podia ficar sem lenda, e a de Chaves tem uma moura.

Chaves era então Aquae Flaviae, cidade de águas quentes com nome de imperador, e a ponte fazia parte da estrada romana que ligava Braga a Astorga: por ali passaram legiões, mercadores, peregrinos e um bom pedaço da história do noroeste peninsular, sem que os arcos alguma vez se queixassem do peso. Uma obra que aguenta dois mil anos de rio ganha direito a maravilhas, e o povo achou que uma moura era o mínimo que se lhe devia.

Era filha de boa casa e estava prometida ao primo, Abed, como mandavam as famílias. Aceitou o noivado sem amor, que o amor não fazia parte do contrato. Quando os cristãos tomaram Chaves, a rapariga foi levada em cativeiro por um cavaleiro, e deu-se o que nenhum contrato previa: o cativeiro fez-se amor, e ela ficou de vontade própria onde tinha chegado à força.

Abed não perdoou. Anos depois voltou à cidade disfarçado de mendigo e foi esperá-la à ponte, que era caminho de toda a gente. Quando ela se aproximou, estendeu-lhe a mão a pedir esmola. A moura estendeu a sua, olhou-o, e reconheceu o primo tarde demais: a maldição caiu-lhe em cima ali mesmo. Para sempre ficaria encantada debaixo do terceiro arco daquela ponte.

E lá está, dizem. Debaixo do terceiro arco, à espera de um cavaleiro que a desencante. Conta-se em Chaves que houve um que a ouviu chamar, uma noite, e fugiu dali a sete pés: uma coisa é gostar de lendas, outra é ouvi-las chamar pelo nosso nome.

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