A Dama Pé-de-Cabra
Andava um senhor à caça, conta o livro velho, quando ouviu cantar em cima de uma penha. Era uma mulher como nunca vira: formosa, ricamente vestida, de voz que prendia. Quis logo casar com ela, e ela aceitou com uma condição só, estranha e pequena: que ele nunca se benzesse. O fidalgo, que era D. Diego Lopes, aceitou sem pesar o preço, e só então reparou, ou fingiu não reparar, nos pés dela: fendidos, de cabra.
Viveram anos e tiveram dois filhos. Até ao dia em que, à mesa, um alão e uma podenga se travaram diante de todos, e a podenga, contra a natureza, matou o cão grande. O senhor, assombrado, benzeu-se. Foi o bastante: a dama agarrou a filha, ergueu-se no ar e saiu por onde parede nenhuma tinha porta, deixando o marido com o filho e com o espanto.
A história não acaba na fuga. Anos depois, caído o senhor em cativeiro dos mouros, o filho de ambos foi à penha da mãe pedir-lhe ajuda. A dama, que não deixara de ser mãe por ser o que era, deu-lhe um cavalo fora deste mundo, o Pardalo, com uma instrução só: montar sem medo e não o travar. Numa noite, o cavalo levou-o a Toledo e trouxe pai e filho de volta, e da linhagem desse resgate contam os livros que veio gente grande.
É das lendas mais estranhas que a península guardou: um pacto doméstico com o sobrenatural, quebrado não por maldade, mas por um gesto de igreja feito sem pensar. Na raia transmontana, onde as mouras encantadas também aparecem com pés de bicho a quem as espreita, a história sempre se contou como coisa de casa.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.