O Milagre de Santarém
Vivia em Santarém, no século XIII, uma mulher casada com um homem que lhe fugia de casa. Desesperada, foi ter com uma feiticeira, que lhe prometeu remédio em troca de um pagamento estranho: uma hóstia consagrada.
A mulher foi à igreja de Santo Estêvão, comungou, tirou a hóstia da boca às escondidas e embrulhou-a no lenço da cabeça. Mal saiu da igreja, o lenço começou a pingar sangue. Assustada, correu a casa, escondeu o embrulho no fundo da arca do enxoval e não disse nada a ninguém.
Nessa noite, a arca começou a dar luz. Uma claridade que varava a madeira e enchia o quarto, conta-se, com anjos à volta. O marido acordou, a mulher confessou tudo, e de manhã a casa estava cheia de vizinhos e de clero. A hóstia, ensanguentada e intacta, voltou em procissão para Santo Estêvão, e a casa do roubo acabou transformada em capela, que ainda lá está, na rua que desce ao Alfange.
A fama da relíquia cresceu com os séculos. Reis portugueses vieram em romaria, papas concederam graças a quem a visitasse, e o milagre de Santarém entrou na lista curta dos milagres eucarísticos clássicos da Europa, citado lado a lado com os de Bolsena e de Lanciano. A cidade fez dele identidade: a festa anual ainda leva a relíquia à rua, com o pálio, as confrarias e as janelas compostas.
A casa da mulher, na antiga rua que desce ao rio, é hoje uma capela pequena, com a fachada marcada para quem passa: ali terá estado a arca que deu luz. Entre a capela e a igreja vão poucos minutos a pé, os mesmos que a hóstia embrulhada fez no lenço, e há quem faça o percurso como quem repete a história.
Santarém guardou a relíquia como o seu maior tesouro. Reis vieram vê-la, papas concederam indulgências a quem a visitasse, e a igreja de Santo Estêvão passou a chamar-se do Santíssimo Milagre. Todos os anos, a cidade ainda sai à rua para a recordar.
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