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Lenda

Frei Gil e o pacto com o Diabo

Antes de a Alemanha ter o seu Fausto, Santarém já tinha o seu. Gil, filho de boas famílias, novo, ambicioso e com pressa de saber, partiu para os estudos e desviou-se no caminho: em Toledo, cidade que a lenda fazia capital das artes escuras, entregou-se a um mestre que ensinava o que as escolas não ensinavam. O preço era o do costume nessas casas: um papel assinado com sangue, a alma em penhor, e em troca a ciência toda, sobretudo a medicina, em que Gil se tornou prodígio.

Viveu anos na glória do saber comprado, médico afamado, homem do mundo. Até que os avisos começaram: sonhos maus, um cavaleiro de fogo que lhe aparecia no caminho a gritar-lhe que mudasse de vida. Gil resistiu, tremeu, e por fim quebrou-se. Largou tudo, meteu-se no hábito dos dominicanos, e trocou a fama pela cela, a penitência a pagar juros de um contrato que continuava assinado.

A lenda guarda o melhor para o fim: depois de anos de oração e de lágrimas, Nossa Senhora, a quem Gil se entregara, obrigou o próprio Diabo a devolver o papel. O contrato, com o sangue já sumido, foi-lhe posto nas mãos, e o homem que tinha vendido a alma morreu santo, em Santarém, com fama de milagres e processos de devoção.

A história correu mundo nos púlpitos e nos livros de exemplo, que era onde estas vidas se contavam, e cada pregador lhe afinava um pormenor: o cavaleiro de fogo ganhava mais chamas, o papel devolvido descia em nuvem ou pela mão da própria Senhora. Em Santarém, o túmulo do frade tornou-se lugar de devoção, com os doentes a pedir-lhe pela saúde, porque um médico que se salvou a si próprio, diziam, havia de saber salvar os outros.

É a versão portuguesa de uma das grandes histórias europeias, o sábio que compra o saber ao preço da alma, com uma diferença que diz muito de cá: o nosso Fausto safa-se, porque entre o inferno e um homem arrependido a lenda portuguesa põe sempre uma Senhora de permeio.

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