São Torcato, o corpo que não se desfaz
A meia dúzia de quilómetros de Guimarães há uma vila que guarda um santo inteiro. Não uma relíquia, não um osso num relicário: um corpo, estendido numa urna de vidro dentro de um santuário enorme, e a fama, repetida de geração em geração, de que está como no dia em que o enterraram, há mais de mil anos.
A história que se conta é a de um bispo dos tempos antigos, Torcato, morto pela espada quando as guerras da fé varriam a península. O corpo, escondido para o livrar dos invasores, perdeu-se; e foi um acaso de lavradores, ou um sinal do céu, conforme quem conta, que o devolveu à terra que hoje tem o seu nome. Quando o abriram, dizem, vinha intacto, com as vestes e a carne, e assim se conservou, contra tudo o que a natureza manda.
A vila cresceu à volta do milagre. Primeiro uma igreja pequena, depois a ambição de um santuário à medida da fama, começado no século XIX com traça de catedral e ainda hoje, com as suas torres altas, desproporcionado e comovente no meio do casario. Lá dentro, o santo continua a receber visitas: gente que se benze, gente que espreita com mais curiosidade do que fé, e velhas que lhe falam baixinho como a um parente.
A romaria, no início do verão, é das grandes do Minho: andores, cera, arraial, e o costume antigo de dar três voltas à urna. Conta-se que os cabelos e as unhas do santo continuam a crescer, e que já houve quem lhos aparasse; conta-se também que quem duvida em voz alta dentro do santuário sai de lá com um arrepio que não escolheu. As lendas dos corpos santos são assim: vivem menos do que está na urna e mais do que se diz à volta dela.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.