Ditos

As palavras para cada ocasião.

Lenda

Mumadona e o Castelo de Guimarães

Antes de haver Portugal, houve uma senhora que mandava no vale do Ave. Chamava-se Mumadona Dias, era condessa, viúva e dona de terras que não acabavam, e no meio delas fundou aquilo que lhe enchia a alma: um mosteiro, em Vimaranes, para monges e monjas rezarem pela família dela e darem pousada a quem passasse.

O problema é que a paz atraía ladrões. Por aqueles anos do século X desciam normandos pela costa e subiam razias mouras pelo interior, e um mosteiro rico e desguardado era um convite. Conta-se que Mumadona, avisada em sonhos de que a sua obra ia arder, decidiu que os monges precisavam de mais do que orações: precisavam de pedra. Mandou levantar um castelo no monte ali ao lado, o monte Latito, com muralhas para onde a gente do burgo pudesse correr quando os sinos tocassem a rebate.

À sombra dessas duas casas, a de Deus e a das armas, cresceu a povoação que haveria de ser Guimarães. E o castelo da condessa, refeito e crescido pelos senhores que vieram depois, foi o mesmo onde, gerações mais tarde, se criou um rapaz chamado Afonso Henriques. A lenda gosta desta linha direita: uma mulher ergueu a muralha, e da muralha nasceu um reino.

O documento que segura tudo isto é de fazer inveja a muita história com mais fama: o testamento de Mumadona, do ano de 959, ainda existe, e nele a condessa lista o que deixa ao mosteiro, terras, gado, alfaias de culto, livros, e manda expressamente que se mantenha o castelo que fizera erguer para defesa dos monges e da gente. Poucas lendas portuguesas podem apontar para um pergaminho com mil anos e dizer: está aqui.

O mosteiro dela haveria de se tornar a colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, coração religioso da vila, e o burgo entre as duas casas cresceu até ser a cidade que hoje se apresenta como berço de Portugal. A linha da lenda é essa: primeiro a condessa, depois a muralha, depois o condado, depois o reino. A história é menos direita, como sempre, mas passa toda por ali.

Em Guimarães, Mumadona tem estátua, rua e lugar de mãe fundadora. Poucos fundadores de cidades portuguesas têm os papéis tão em ordem como ela.

Partilhar

Sabes mais sobre isto?

Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.

Só publicamos depois de ler. Não guardamos o teu endereço de IP, só uma impressão digital dele para travar abuso.