Os Lobos de Câmara de Lobos
Quando João Gonçalves Zarco andou a reconhecer a costa sul da Madeira, recém-achada e ainda sem gente, deu com uma enseada abrigada, funda e escura, onde o mar entrava manso. E deu com os donos da casa: uma multidão de lobos-marinhos, deitados nas pedras e a boiar na água, tantos que não se lhes via o fim.
Os homens de Zarco nunca tinham visto bicho assim em tal quantidade. Chamaram-lhes lobos, à maneira do mar, e à enseada ficou logo o nome: a câmara dos lobos, o quarto onde os lobos dormiam. Conta-se que ali se matou carne e se fez azeite de foca para as lâmpadas, e que o próprio Zarco, terminado o reconhecimento, escolheu aquelas bandas para se estabelecer com os seus.
A vila que nasceu na enseada guardou o nome, Câmara de Lobos, e os barcos pintados de cores fortes que hoje enchem a baía ainda são, ao seu modo, herdeiros daquela primeira espantação: gente do mar a viver do que a enseada dá.
Zarco tomou o sítio de amores: conta-se que foi ali que se fixou com a família e a gente da sua casa, nas terras que desceriam depois aos seus. A enseada virou porto de pescadores, e a vila cresceu com o mar por ofício: ainda hoje é dali que sai boa parte do peixe-espada preto da Madeira, pescado de noite, a profundidades onde nunca chega a luz.
A baía teve ainda um hóspede famoso: Winston Churchill, de visita à Madeira em 1950, sentou-se num muro de Câmara de Lobos com cavalete e tintas e pintou os barcos da enseada. O sítio onde pintou tem hoje o nome dele e um miradouro, e a vila dos lobos-marinhos ficou também na história da pintura de domingo de um primeiro-ministro.
Os lobos, esses, foram-se. De tanto azeite e de tanta pele, restaram poucos, e os poucos mudaram-se para longe da vila que tem o nome deles. É uma ironia que a lenda não previu: a terra ficou a dever o nome a um bicho que quase deixou de existir.
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