Óbidos, a prenda das rainhas
Conta-se que D. Dinis e a rainha Isabel, acabados de casar, passaram por Óbidos numa viagem pelo reino. A rainha, que vinha de Aragão e trazia os olhos cheios de terras novas, ficou parada diante daquilo: a vila apertada dentro das muralhas, as casas caiadas, o castelo no alto e o mar ao longe. Terá dito que nunca vira coisa assim, e o rei, que era novo e estava enamorado, deu-lha ali mesmo, como quem dá uma joia.
E assim, diz a lenda, começou o costume: Óbidos passou a ser das rainhas de Portugal. Cada rei a entregava à mulher no casamento, com as suas rendas e os seus privilégios, e a vila habituou-se a ter por senhora uma mulher. As rainhas valeram-lhe: mandaram obras, confirmaram foros, protegeram a terra, e Óbidos pagou-lhes ficando como elas a quiseram, pequena, cuidada e murada.
O costume, esse, repetiu-se por gerações: rei que casava, rainha que recebia Óbidos, com as rendas da vila e das terras à volta. Foi assim com D. Leonor, mulher de D. João II, que daquelas paragens fez obra que ainda dura: foi nas suas terras de Óbidos que nasceu o hospital das Caldas, à volta do qual cresceu uma cidade inteira. As rainhas não eram senhoras de longe; mandavam, reparavam muralhas, confirmavam privilégios, e a vila conhecia-lhes o nome.
Dentro das muralhas ainda se aponta a janela de onde as senhoras teriam visto a vila, e a rua direita por onde entravam com cortejo. No século XVII viveu ali Josefa de Óbidos, pintora com nome próprio numa época em que as mulheres não assinavam quadros, e a vila das rainhas ganhou mais essa senhora para a sua conta.
A prenda de casamento é das lendas mais repetidas às portas da vila, e é fácil perceber porquê: explica com um gesto de amor aquilo que os documentos explicam com atos e chancelarias. Entre uma doação régia e uma joia dada por um rei apaixonado, a memória escolhe sempre a joia.
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