A Nau Catrineta
Lá vem a Nau Catrineta, que tem muito que contar: assim começa, há séculos, um dos romances mais sabidos da língua. A nau vinha de longe, com sete anos e um dia de mar, e a bordo já não havia que comer nem que beber. A fome fez o que a fome faz: deitou-se sola de molho para jantar, e quando nem sola houve, deitaram-se sortes, para saber quem havia de morrer para os outros viverem.
A sorte, com a crueldade certeira das histórias, caiu no capitão-general. Ofereceu-se então o gajeiro para subir ao mastro, a ver se do alto se via remédio; e viu. Terras de Espanha, areias de Portugal, e mais miúdo ainda: três meninas debaixo de um laranjal, ou à janela, conforme quem canta. O capitão, doido de alegria, prometeu tudo: as meninas, ouro e prata, o cavalo branco, a própria nau. O gajeiro foi recusando, até que a voz que negociava mostrou o que era: não queria nada do mundo, queria a alma do capitão, que viesse com ele.
O fim salva-se num gesto: o capitão entrega a alma a Deus e ao mar, e o tentador, vencido, some-se, levando ou não o gajeiro consigo, que nisto as versões não se entendem. A nau chega a terra, e o romance acaba onde os romances gostam de acabar, à beira do milagre e da moral.
Cantou-se de norte a sul e nas ilhas, ao serão e ao trabalho, cada terra com a sua melodia e os seus versos trocados. Foi Almeida Garrett quem o fixou no papel com fama, no seu Romanceiro, e desde aí a Catrineta navega também nos livros das escolas, que é a forma moderna de uma nau nunca mais dar à costa.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.