Martim Moniz e a porta do castelo
No verão de 1147, Lisboa estava cercada. D. Afonso Henriques e os cruzados vindos do norte apertavam a cidade moura havia meses, e a muralha do castelo aguentava tudo. Até que um dia, conta a lenda, uma porta se entreabriu.
Do lado de dentro estava uma das grandes cidades da península, rica e murada; do lado de fora, um rei acabado de fazer, que precisava dela para o reino ter capital à altura. O cerco arrastou-se de julho a outubro, com fome dentro das muralhas e torres de assalto a arder diante delas, e há relatos de cruzados que o contam quase dia a dia.
Martim Moniz, cavaleiro do rei, viu a nesga e percebeu duas coisas ao mesmo tempo: que ali estava a entrada para a cidade, e que não havia tempo de chegar com os companheiros antes que os mouros fechassem a porta. Tempo, havia só para uma coisa, e ele fê-la: atirou-se para o vão e meteu o próprio corpo entre a porta e a ombreira.
A porta esmagou-o, mas não fechou. Sobre o corpo dele passaram os companheiros, e por aquela nesga entrou a conquista de Lisboa. O rei, diz-se, mandou que a porta guardasse para sempre o nome do cavaleiro que a segurou com a vida.
A lenda resume esses meses todos a um corpo entalado numa porta, que é o que as lendas fazem melhor: escolher um homem onde caiba uma cidade inteira.
O nome ficou e foi crescendo com a cidade: primeiro a Porta de Martim Moniz na muralha do castelo, depois a praça lá em baixo, hoje das mais movimentadas de Lisboa, e a estação de metro por onde passam todos os dias milhares de pessoas que atravessam, sem saber, a porta que um homem terá segurado com o peito.
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