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Lenda

D. Sebastião, o Encoberto

El-rei D. Sebastião partiu para África em junho de 1578, com vinte e quatro anos, uma armada enorme e a certeza de quem nunca tinha perdido nada. A 4 de agosto, em Alcácer Quibir, o exército português foi desfeito em poucas horas. O rei foi visto a carregar de espada na mão, foi visto cercado, e depois não foi visto mais.

Foi desse não ter sido visto que nasceu tudo. O corpo que os espanhóis devolveram anos depois vinha de longe e ninguém o soube reconhecer com certeza. E um reino que tinha perdido o rei, a nobreza e, dois anos depois, a própria coroa para Filipe de Espanha, começou a contar que Sebastião não tinha morrido. Estava escondido, a penar ou a preparar-se, numa ilha encoberta, e voltaria numa manhã de nevoeiro para levantar Portugal outra vez.

A espera teve os seus aproveitadores. Ainda o século XVI não tinha acabado e já quatro homens se tinham feito passar pelo rei: um ermitão em Penamacor, outro na Ericeira, um pasteleiro castelhano em Madrigal e um calabrês em Veneza que nem português falava. Todos juntaram gente, todos acabaram presos ou enforcados, e nenhum matou a lenda, porque a lenda não precisava deles.

Com o tempo, o rei escondido foi-se tornando outra coisa: o Encoberto, o que há de vir, o Quinto Império que o padre António Vieira haveria de pregar já com Portugal restaurado. As trovas do sapateiro Bandarra, escritas em Trancoso antes ainda de Sebastião nascer, foram relidas como profecia dele. E o nevoeiro, que em Lisboa é coisa de quase todas as manhãs de inverno, ficou para sempre carregado de outra espera.

Diz-se que é a lenda mais portuguesa de todas, porque não promete uma vitória: promete um regresso. E porque ninguém a conta com pressa de a ver cumprida.

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