O Senhor de Matosinhos
Conta-se que a imagem não foi feita por mãos de cá. Tê-la-ia esculpido Nicodemos, aquele que ajudou a descer Cristo da cruz e que, sabendo como Ele era, fez cinco imagens do que os seus olhos tinham visto. Lançadas ao mar para escaparem às perseguições, as imagens espalharam-se pelo mundo; e uma delas, ao fim de séculos de água, veio dar à praia de Matosinhos.
Vinha inteira, menos um braço. O povo recolheu o Cristo mutilado, deu-lhe casa e culto, e esperou. A espera fez a melhor parte da lenda: anos depois, uma velha que apanhava lenha na praia deitou ao lume uma acha que o fogo recusava. Por mais que a virasse, a madeira não ardia. Olhada com atenção, a acha revelou-se o que era: o braço que faltava, devolvido pelo mesmo mar, e que assentou no ombro da imagem como se nunca de lá tivesse saído.
Com o milagre veio a fama, e com a fama a romaria. O Senhor de Matosinhos tornou-se uma das grandes devoções do norte, com a igreja refeita à altura no século XVIII, traça de Nicolau Nasoni e ouro do Brasil, pago em boa parte por emigrantes e por promessas da gente do mar, que ali deixava os seus ex-votos: barcos pequenos, retratos de naufrágios, agradecimentos por voltar a casa.
A festa, pelo Espírito Santo, ainda enche a cidade. E a lenda atravessou o Atlântico com os que partiram: no Brasil, em Congonhas, um devoto português ergueu ao mesmo Senhor de Matosinhos um santuário que é hoje património da humanidade. Não é mau destino para uma imagem que, diz a história, começou por ser deitada ao mar para se salvar.
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