O Rei Ramiro e a Lenda de Gaia
Contam os livros velhos que o rei Ramiro de Leão perdeu a mulher para um rei mouro chamado Alboazar, que lha levou para o seu castelo de Gaia, sobre o Douro. Uns dizem que foi rapto, outros dizem coisa pior: que ela foi de vontade, farta do marido.
Ramiro não veio com exército. Veio por mar, escondeu as naus na foz, vestiu-se de romeiro pobre e apresentou-se às portas do castelo a pedir água, com a buzina escondida debaixo dos farrapos. A rainha reconheceu-o e escondeu-o, mas há versões em que o esconde para o salvar e versões em que o esconde para o entregar. Quando Alboazar o descobriu, o rei disfarçado pediu uma última vontade: tocar a sua buzina três vezes, para se despedir da vida.
Deixaram-no. Ao terceiro toque, a gente das naus, que só esperava o sinal, caiu sobre o castelo. Ramiro matou Alboazar e os seus, levou a mulher para bordo, e no meio do rio fez-lhe a pergunta que as versões todas guardam: de quem tinha ela pena naquele dia. Quando a resposta lhe soube a traição, o rei fê-la pagar ali mesmo, às ondas do Douro.
A história não anda solta: vem no Livro de Linhagens do conde D. Pedro, filho bastardo de D. Dinis, que a escreveu para explicar nada menos do que a origem de uma das grandes famílias medievais, os da Maia. Do filho que Ramiro teve da sua segunda mulher descenderia essa linhagem, e assim a lenda servia de certidão de nobreza: quem descende de um rei que atravessou o mar por uma afronta não é gente pequena.
Seiscentos anos depois, Almeida Garrett achou a história boa demais para ficar nos pergaminhos e fez dela um poema do seu Romanceiro, com a rainha à janela e o mar por testemunha. É por essa dupla vida, genealogia medieval e romance romântico, que a lenda de Gaia chega até hoje com tantas versões: cada século a contou para o seu proveito.
Do castelo arrasado ficou o nome da terra, Gaia. E do lugar de onde a rainha ficou a olhar o mar, à espera do que já não vinha, diz a lenda que ficou o outro nome, do lado do Porto: Miragaia, a que mira Gaia.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.