As Alminhas da Ponte
Na manhã de 29 de março de 1809, o exército francês do marechal Soult entrou no Porto. A cidade fugiu como pôde, e o caminho de fuga era um só: a Ponte das Barcas, vinte barcaças amarradas umas às outras a fazer de estrada sobre o Douro, na direção de Gaia.
A multidão empurrou-se para ali toda ao mesmo tempo. Ao peso de milhares de pessoas em pânico, com a guerra a apertar por trás, o tabuleiro cedeu e as barcas do meio afundaram-se. Quem vinha atrás não via o buraco e continuava a empurrar quem ia à frente. O rio encheu-se de gente, e durante dias devolveu corpos às margens.
Contam as memórias do tempo que houve famílias inteiras desaparecidas na água, e que o desastre doeu muito para lá da cidade: o Porto estava cheio de gente de toda a região, fugida à invasão, e a ponte era a única saída para o outro lado do rio.
O Porto nunca fechou aquela ferida. No sítio do desastre, encostado ao muro do cais da Ribeira, está desde 1897 um baixo-relevo de bronze do escultor Teixeira Lopes: as almas entre chamas, de braços erguidos para a cruz. O povo chamou-lhe as Alminhas da Ponte, e fez delas o que sempre faz às suas dores grandes: um altar.
Ainda hoje ali se acendem velas, se deixam moedas e flores, se faz o sinal da cruz ao passar. As almas dos afogados, diz quem lá reza, ficaram no rio e olham por quem anda na Ribeira. Mais de dois séculos depois, o Porto continua a não passar diante daquele bronze como quem passa diante de uma parede.
Em cada 29 de março ainda ali aparece uma flor ou uma vela a mais, que a cidade tem boa memória para as suas dores.
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