A Moura de Silves
Silves foi a maior cidade que o Algarve mouro teve: capital de reino, terra de poetas, com o rio Arade a servir-lhe de estrada até ao mar. Quando esse mundo acabou, ficou o castelo vermelho no alto do monte e ficou, dizem, uma moura à espera.
Foi em Silves que al-Mu’tamid, o rei-poeta, aprendeu o ofício dos versos antes de reinar em Sevilha, e a cidade nunca perdeu a fama de terra onde as palavras valem ouro. Caído o reino, o povo pôs no rio a sua própria poesia, com menos jasmins e mais assombro.
É na noite de São João que ela se mostra. À meia-noite em ponto, quem estiver à beira do Arade pode ver descer o rio uma barca que não é deste mundo: de marfim e ébano, contam uns; de prata, com remos de ouro, juram outros. Nela vem a moura encantada de Silves, formosa como manda o seu sangue, a cantar uma toada que mete no coração uma tristeza doce.
Canta o seu lamento e espera. O encanto, dizem os que sabem destas coisas, só se quebra com as palavras certas, ditas por quem não tenha medo. Ninguém as acertou até hoje: uns fogem ao primeiro verso, outros ficam pregados ao chão sem voz nenhuma, e há quem tenha remado atrás da barca até a ver desfazer-se em névoa com a madrugada.
Passado o São João, o Arade volta a ser um rio por um ano inteiro. A moura recolhe ao seu encanto, debaixo das águas ou debaixo do castelo, que nisso as versões também não se entendem, e Silves fica à espera do próximo junho.
Quem quiser tentar a sorte sabe onde e quando: o Arade debaixo do castelo, à meia-noite de 23 para 24 de junho. As palavras certas é que ninguém lhas ensina, e talvez seja esse o verdadeiro encanto: dura enquanto durar a nossa ignorância.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.