A Moura Cássima
Quando as hostes de D. Paio Peres Correia apertaram o cerco a Loulé, o governador mouro da vila percebeu que os seus dias ali estavam contados. Tinha três filhas, Zara, Lídia e Cássima, a mais nova e a mais bela, e um medo maior do que o da derrota: vê-las cativas.
Na véspera do assalto levou-as em segredo a uma fonte fora das muralhas. Sabia artes que os sitiantes não sabiam, e usou-as: encantou as três filhas na água, para que nenhum vencedor lhes pusesse a mão em cima. Ficariam ali guardadas, invisíveis, até que ele próprio as voltasse a buscar.
A fonte era das que davam de beber à vila, e o povo continuou por séculos a encher lá os cântaros, sem saber ao certo o que a água guardava dentro. As mouras encantadas, explicavam os antigos, não morrem nem envelhecem: ficam suspensas no lugar do encanto, entre este mundo e o outro, até que alguém acerte nas palavras que as soltem.
A vila caiu, e o governador nunca voltou. As três irmãs ficaram no encanto, e o tempo, que desfaz cercos, reinos e muralhas, ao encanto não o desfez.
É a mais nova que se ouve. Na noite de São João, dizem em Loulé, quem se chegar à fonte em silêncio ouve o choro da Cássima, que já não espera o pai: espera alguém, quem quer que seja, que saiba quebrar o encanto e a deixe enfim sair da água. Há séculos que chora, e há séculos que ninguém sabe como.
Loulé guarda a lenda e guarda o costume. Na noite de São João, que no Algarve é a hora oficial das mouras, ainda há quem apure o ouvido junto às fontes velhas, por via das dúvidas: as lendas só morrem quando ninguém as escuta, e esta ainda tem quem lhe faça serão.
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