A Senhora de Aires
No descampado a sul de Viana do Alentejo, onde hoje se levanta um santuário branco de assombrar, a tradição põe um princípio humilde: uma imagem pequena de Nossa Senhora, achada ali por gente do campo, num tempo de que já ninguém guarda a conta. Uns contam que a acharam pastores, outros que a esconderam cristãos em fuga e a terra a devolveu; como tantas Senhoras do sul, esta apareceu onde quis, longe da vila, e onde apareceu ficou.
Quiseram levá-la para a igreja da terra, diz a lenda, e a imagem teimou: o que se levava à noite amanhecia no campo, no sítio dela. A teimosia santa é um clássico destas histórias, e resolve-se sempre da mesma maneira, com os homens a cederem e a capela a fazer-se onde a Senhora mandou. Fez-se; e à volta da capela pequena foi crescendo a devoção dos campos, dos pastores e dos lavradores, da gente que pedia chuva, saúde para o gado e regresso dos ausentes.
No século XVIII, a devoção tinha tamanho para ambição maior, e ergueu-se o santuário que lá está: barroco, claro, com uma zimbória que se vê de longe na planície, rodeado de alpendres para abrigar os romeiros. Lá dentro, as paredes contam a história verdadeira do culto: centenas de ex-votos, pinturas toscas e comoventes de milagres caseiros, camas de doentes, quedas de cavalo, partos difíceis, cada um com o seu por milagre da Senhora de Aires.
A romaria continua, e ganhou nos últimos tempos uma forma nova e antiquíssima ao mesmo tempo: a grande peregrinação a cavalo, gente de sela e chapéu a atravessar a planície como os romeiros de sempre, para cumprir a promessa de chegar.
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