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Lenda

A Moura de Odemira

Odemira tem castelo sobre o rio Mira, e teve, diz a lenda, um alcaide mouro chamado Ode. Governava a vila nos anos em que a reconquista descia para o sul, e tinha uma mulher que as versões descrevem como é de regra nestas histórias: formosa como só as mouras das lendas.

O Mira é dos poucos rios navegáveis do Alentejo, e foi ele que fez a vila: subia-se da foz, em Vila Nova de Milfontes, até ao cais de Odemira, e por esse caminho de água entrava e saía o que a terra tinha para trocar com o mundo. Um rio assim pedia guarda, e a guarda, nos séculos mouros, tinha nome e tinha torre.

Foi ela quem os viu primeiro. Estava à janela da torre quando as hostes cristãs assomaram no horizonte, e gritou pelo marido com o aviso mais curto que a aflição lhe deixou na boca: «Ode, mira!», que era como quem diz, Ode, olha, vêm aí.

O grito não salvou a vila, que as reconquistas não param por causa de um aviso. Mas ficou. Colou-se ao lugar, passou de boca em boca, e quando os novos senhores precisaram de um nome para aquela terra, encontraram-no já feito: Odemira, o grito da moura inteiro, com o nome do marido lá dentro.

Como todas as lendas boas, esta tem variantes: nuns contos a moura morre com a vila que avisou, noutros fica encantada no rio, a pentear os cabelos nas manhãs de São João, que é o destino habitual das mouras a quem a lenda não dá sepultura. O grito, esse, não muda em versão nenhuma.

É das lendas mais estimadas do Alentejo litoral, porque cabe num fôlego e explica tudo de uma vez: o nome, o castelo, o rio e o fim de um mundo, em duas palavras gritadas de uma torre.

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