O Senhor Santo Cristo dos Milagres
A imagem chegou aos Açores, conta a tradição, pela mão mais alta que havia: o papa tê-la-ia oferecido a duas noviças micaelenses que foram a Roma pedir licença para fundar convento nas ilhas. Era um Ecce Homo, um Cristo de meio corpo, coroado de espinhos, com a cana por cetro e o rosto de quem acabou de ser açoitado: não um Cristo em glória, mas um homem em sofrimento, olhando quem o olha.
A imagem andou de casa em casa religiosa até assentar no convento da Esperança, em Ponta Delgada, e ali foi ficando, venerada sem estrondo, até encontrar a sua verdadeira apóstola. Chamava-se Teresa da Anunciada, freira do convento no século XVII, e tomou o Santo Cristo por vida: limpou-o do esquecimento, deu-lhe altar, alfaias e festa, contou-lhe os milagres e pô-lo no centro da devoção da ilha. Conta-se que falava com a imagem como quem fala com uma pessoa, e que dela recebia o que pedia; à conta dessa intimidade, os micaelenses aprenderam a pedir também.
A festa que a madre começou nunca mais parou. Todos os anos, no quinto domingo depois da Páscoa, o Senhor Santo Cristo sai da Esperança em procissão, coberto do seu manto vermelho bordado a ouro, sobre um mar de flores e de promessas, com a cidade inteira na rua e as varandas vestidas. É a maior festa religiosa dos Açores e uma das maiores do país, e há muito que transborda das ilhas: onde há açorianos, na América como no Canadá, há uma festa do Santo Cristo a fazer as vezes da de Ponta Delgada.
Para os emigrados, a imagem é a própria ilha em ponto pequeno: quem não pode voltar, volta por ela.
Sabes mais sobre isto?
Se conheces outra versão, se dizem de outra maneira na tua terra, ou se encontraste um erro, diz. É assim que isto melhora.