O Cavaleiro de Pedra do Corvo
Quando os portugueses chegaram à ilha do Corvo, a mais pequena e mais perdida dos Açores, contaram que tinham encontrado no alto de um monte uma coisa impossível: uma estátua de pedra, um cavaleiro em cima do seu cavalo, sem barrete, com a mão esquerda na crina e a direita estendida, de dedo apontado ao mar. Apontava para oeste. Para onde ainda não havia nada.
Abaixo da figura, na rocha, diziam-se gravadas letras que ninguém soube ler. O achado era estranho demais para ficar quieto: numa ilha onde nunca vivera ninguém, quem teria posto ali um cavaleiro a mostrar o caminho da América antes de a América ter nome?
Conta-se que el-rei D. Manuel mandou primeiro desenhar a figura, e depois mandou um homem de Lisboa arrancá-la e trazê-la. Terá chegado partida, do gesto ou da viagem, e desapareceu sem deixar rasto, e com ela as letras, que ninguém copiou a tempo. Ficou só a história, contada pelos cronistas com aquele cuidado de quem também já só ouviu dizer.
As letras deram tanto que falar como o cavaleiro. Gravadas na rocha por baixo da figura, ninguém as soube ler nem copiar, e perderam-se com a estátua. Séculos depois ainda se lhes juntou outra maravilha: correu notícia de moedas antigas, ditas cartaginesas, achadas na ilha por um temporal, notícia publicada lá fora e nunca confirmada por achado nenhum que se pudesse examinar. O Corvo, pequeno como é, foi juntando um tesouro de coisas que ninguém consegue mostrar.
A figura serviu a muita tese: provaria que os fenícios tinham chegado às ilhas, ou os cartagineses, ou gente da América antes de Colombo. Os cronistas mais cautelosos escreveram sempre com um pé atrás, e Góis, que é quem melhor a conta, não jura ter visto nada: conta o que se contava. É talvez o mais honesto retrato da lenda, um cronista a passar adiante, com cuidado, uma maravilha em segunda mão.
Houve quem visse no cavaleiro obra dos fenícios, dos cartagineses ou de gente do outro lado do mar, e houve quem risse. O certo é que a ilha ficou com a figura no imaginário e no próprio selo do município, um cavaleiro que aponta, teimosamente, para o poente.
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